sábado, dezembro 06, 2008

Vale tudo. Até tirar olhos.

Trinta anos da eufemisticamente designada 'alternância democrática', entre PS e PSD, não apenas falharam clamorosamente no desenvolvimento do nosso país, como o transformaram num dos mais pobres e socialmente mais injustos da União Europeia.
Paralelamente, grassa em Portugal a mais sórdida e impune promiscuidade entre o poder político e os interesses financeiros, ante a complacência das autoridades ditas reguladoras e a ineficácia do sistema judicial.
Enquanto dois milhões de portugueses sobrevivem no limiar da pobreza e cada vez mais elementos da 'classe média' têm de recorrer à ajuda do Banco Alimentar, o 'centrão de interesses' continua a ser uma plataforma para a realização de negociatas sem escrúpulos, imorais e, quiçá, ao arrepio da lei, como esta ou esta.
Decididamente, a Portugal já pouco sobra de um Estado de Direito democrático. Mais parece uma 'zona franca' onde tudo vale. Até tirar olhos.

9 comentários:

  1. Senadores da República (das bananas. O excerto do poema de Guerra Junqueiro define bem o grau zero de étia política que grassa no centrão cleptocrata. "(...)Dois partidos (...),
    sem ideias,
    sem planos,
    sem convicções,
    incapazes (...)
    vivendo ambos do mesmo utilitarismo
    céptico e pervertido, análogos nas palavras,
    idênticos nos actos,
    iguais um ao outro
    como duas metades do mesmo zero,
    e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento,
    de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar (...)"
    Guerra Junqueiro, in "Pátria", escrito em 1896

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  2. Al Mertuli6/12/08 12:31

    Não posso estar mais de acordo. Só que, infelizmente, nascemos com o triste fado de, aos portugueses, parecer não restar alternativa ao centrão dos interesses... Daí que, a não ser que aconteça algum "milagre" só nos reste continuarmos a ser "governados" por quem se governa à custa do "nosso" voto... Bolas... e eu que tive tantas esperanças quando Abril nos abriu as portas... da esperança.

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  3. E eu, que continuo com esperança!
    (Será loucura?)
    Homero

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  4. Estes sujeitos que têm feito parte da governança deste país, pelo menos de há uns 25 anos a esta parte, são escolhidos para as listas eleitorais por gente que nunca aparece; depois, se ganham o poleiro, apenas têm de obedecer cegamente a tudo o que lhe mandam; mesmo que façam algum sacrificiozito, são bem recompensados enquanto lá estão (no poleiro); depois de sairem, são bem colocados e podem meter-se em todos os negócios que quizerem porque são sempre bem protegidos. Se borrarem a pintura demais, são abandonados e até podem ser arguidos mas, de qualquer forma, há pouquíssimos que caiem nessa. Entretanto, levaram muitos e muitos milhões daqui para fora e, portanto, não têm problemas na vida depois da coisa arrefecer. Lembra-se do grupo de macau? alguns são agora ministros, outros já foram. MAS, OS QUE ME IRRITAM MAIS SÃO MESMO ESSES QUE NUNCA APARECEM E QUE COMANDAM TUDO ISTO.

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  5. "A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar." (Eduardo Galeano)

    Percebo-te, Homero.
    Somos utópicos.
    É por isso que não deixamos de caminhar!

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  6. Al Mertuli, meu amigo, se há coisa que não nos ajudará é o fatalismo ou a crença em milagres.
    Estamos "condenados" a acreditar nos ideais de Abril e a lutar por uma sociedade mais justa. Esta e o poder político instalado há muito provaram que estão ao serviço dos ricos e dos poderosos.
    Abraço.

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  7. caro psergio
    Há uma profunda semelhança entre os últimos 30 anos do actual regime republicano, dominados pela alternância governativa do PSD e do PS, e os últimos 30 anos do regime monárquico, em que "regeneradores" e "progressistas" se alternavam no poder.
    O resto da história já conhece.
    Só é lamentável que, passados 100 anos, ainda não tivéssemos aprendido a lição.
    Mas acredito que, assim como o "rotativismo" teve um fim, a "alternância democrática" (chamemos-lhe cleptocrática) também há-de cair. Se fizermos por isso.

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  8. Em 4 de Março de 2001 o ex-ministro das Obras Publicas Jorge Coelho, e após uma noite de tragédia onde morrem 59 pessoas, demitiu-se e afirmou que “a culpa não ia morrer solteira”.
    As famílias das vítimas da ponte de Entre-os-Rios ao apresentarem uma queixa crime contra o Estado, pediram ao então ex-ministro Jorge Coelho, que contasse tudo o que sabia sobre o caso.
    Uma das ingenuidades que caracterizam a personalidade do povo português - em termos sociológicos - é a crença que há certas personalidades públicas cuja bondade, simpatia ou o proselitismo os pode ajudar.
    O antigo ministro, ex-responsável político do PS e actual Presidente Executivo da Mota-Engil é um destes casos.
    Após a sua demissão de Ministro, e claramente numa fase desfavorável da sua carreira política, passa a exercer funções de professor universitário numa instituição de ensino superior privada (ISCEM) cujo vencimento era superior a uma centena de euros à hora.
    Em 2002 o Dr. Jorge Coelho cria uma empresa - a Congetmark – uma das accionistas da Valor Alternativo, entrando assim no mundo empresarial.
    De Político, a Professor Universitário, a Empresário e a Presidente Executivo vem ao de cimo a capacidade de manobrismo do Dr. Jorge Coelho. É incólume à crítica, à censura pública, à imputação de responsabilidades pelos actos que produzem efeitos lesivos dos interesses dos cidadãos.
    Claramente, e ao contrário do que se podia imaginar até aqui, o Dr. Jorge Coelho não tem qualquer costela de bom samaritano, mas de sim de um oportunista puro e nato, cheio de esquemas e habilidades tal e qual o Harry Houdini

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  9. ..."transformara a nação num espaço de terror, onde o silêncio tomava corpo no carimbo da censura, e os informados arquejavam sob o pesadelo latente da polícia secreta. Fomentada demagogicamente e coberta por um cínico manto de impunidade, a corrupção invadira as próprias profissões ajuramentadas à moral. Ninguém queria ouvir falar de civismo, dever, honradez e liberdade. Uma covardia funda, medular, entranhada na alma, reduzira a camada alfabeta do país a uma massa amorfa, protoplasmática, egoista, surda a todos os apelos fraternos e cega a todos os acenos da razão, sorna, abúlica, pronta apenas em cada momento a emitir pseudópodes tácticos de avidez nutritiva. A orquestração da verdade oficial, realizada através dos vários meios de comunicação ao serviço do poder, acabara por destruir nas mentes o sentido crítico, a apetência da análise e do julgamento. Era como se a varado mando, mágica e demoniacamente, tivesse apagado em cada humanidade a luz racional e deixasse nela somente a escuridão instintiva. Em vez de naturezas pensantes, seres vegetativos. Taxados de palermas, intratáveis ou líricos, consoante o grau eufemístico do catalogador, os raros resistentes, que teimosamente mantinham aceso o facho da insubmissão, viam-se e desejavam-se para sobreviver. "

    Em: A criação do mundo
    Miguel Torga

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