sexta-feira, março 13, 2009

Os pontos nos ii

Em entrevista à Antena 1, Manuel Alegre afirma que a sua relação com o partido terá que ser resolvida "muito rapidamente". E acrescenta:
  • "Se a direcção do partido não dá um sinal da demarcação em relação à afirmação de um dirigente que diz que eu não tenho carácter, então […] tem que ir ganhar as eleições com quem fez essas declarações".
  • "Não está na ordem do dia uma rotura" com o PS mas "uma clarificação de situações."
  • "Temos boas relações pessoais [Alegre e Sócrates], apesar de termos concepções muito diferentes do que é a esquerda, do que é o PS".
  • "Quando eu disse isso [que se houvesse listas de independentes para as legislativas," tal como as coisas estão neste momento, talvez me candidatasse"], "não disse que me candidatava contra o PS. Disse que me candidatava pela renovação da democracia e do próprio PS."
Das palavras de Alegre, conclui-se, portanto, que:
  • Dificilmente abandonará o P"S" para constituir outro qualquer partido.
  • O seu PS é (tem de ser) um partido de esquerda, com uma política de esquerda.
  • O seu combate é pela recuperação da identidade de esquerda do PS, sem o qual a esquerda dificilmente será uma alternativa de poder e de governo.
A convergência da esquerda é fundamental, não apenas para si própria mas sobretudo para o país. Mas exige um diálogo aberto, sem dogmatismo e sem sectarismo, de todos os que dela se reclamam, quer sejam partidos ou cidadãos independentes.
É por esse objectivo que Alegre se tem batido. Resta saber se o conseguirá num PS fracturado entre a esquerda e a direita.

quinta-feira, março 12, 2009

Cantigas do Maio (4)

O charlatão

(Os sobreviventes, 1971)
Palavras, música e voz — Sérgio Godinho

É incrível como, passados 38 anos, esta cantiga não perdeu a sua carga satírica. Só o "charlatão" é outro. Infelizmente para nós.

Numa rua de má fama
faz negócio um charlatão
vende perfumes de lama
anéis de ouro a um tostão
enriquece o charlatão

No beco mal afamado
as mulheres não têm marido
um está preso, outro é soldado
um está morto e outro ferido
e outro em França anda perdido

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

Na ruela de má fama
o charlatão vive à larga
chegam-lhe toda a semana
em camionetas de carga
rezas doces, paga amarga

No beco dos mal-fadados
os catraios passam fome
têm os dentes enterrados
no pão que ninguém mais come
os catraios passam fome

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

Na travessa dos defuntos
charlatões e charlatonas
discutem dos seus assuntos
repartem-se em quatro zonas
instalados em poltronas

P´rá rua saem toupeiras
entra o frio nos buracos
dorme a gente nas soleiras
das casas feitas em cacos
em troca de alguns patacos

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

Entre a rua e o país
vai o passo de um anão
vai o rei que ninguém quis
vai o tiro dum canhão
e o trono é do charlatão

Entre a rua e o país
vai o passo de um anão
vai o rei que ninguém quis
vai o tiro dum canhão
e o trono é do charlatão

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

A auto-avaliação de Sócrates

Que, ao fim de quatro anos de governança do P"S", Portugal é um país mais pobre e socialmente mais injusto, já não há, lamentavelmente, quaisquer dúvidas. Curioso é que seja o próprio Primeiro-ministro a reconhecê-lo, mesmo que inadvertidamente. É caso para concluir que, desta vez, a Sócrates, tido como mentiroso compulsivo, lhe fugiu a boca para a verdade.

Mudar de Rumo

Mais emprego, salários, direitos. Melhores condições de vida e de trabalho para os portugueses.
Precisamente o contrário do que fez Sócrates: aumentou o desemprego e precarizou o emprego, congelou os salários, atentou contra os direitos laborais aprovando um "novo" código do trabalho, agravou as desigualdades sociais e aumentou a pobreza, fragilizou a segurança social, soltou as rédeas à corrupção e à especulação financeira…
E prepara-se para fazer mais do mesmo, se não estivermos unidos e solidários para lhe dizermos "Basta!".

Coimbra do Choupal: por quanto tempo?

Também eu. E, seguramente, a esmagadora maioria dos conimbricences.

Duvido é que a coligação camarária P"SD"/CDS-PP/PPM e o P"S" estejam para aí virados. E receio que o betão e o asfalto acabem por falar mais alto.
Será que os órgãos de soberania serão insensíveis a uma petição subscrita por cerca de 8 000 cidadãos? Será que verdadeiramente existe um Ministério do Ambiente? Será que iremos deixar de cantar "Coimbra do Choupal…"?
O pior pode sempre acontecer, com a espécie de gente que nos "governa".

quarta-feira, março 11, 2009

Cantigas do Maio (3)

Cantiga da velha mãe e dos seus dois filhos - Mãe coragem

(Margem de certa maneira, 1971)
Palavras — Sérgio Godinho; música e voz — José Mário Branco


Ai o meu pobre filho, que rico que é
ai o meu rico filho, que pobre que é
nascidos do mesmo ventre
um vive de joelhos pr'ó outro passar à frente
e esta velha mãe pr'áqui já no sol poente

Um dia há muito tempo, vi-os partir
levando cada um do outro o porvir
seguiram pla estrada fora
um voltou-se pra trás, disse adeus que me vou embora
voltaremos trazendo connosco a vitória

De que vitória falas, disse eu então
da que faz um escravo do teu irmão?
ou duma outra que rebenta
como um rio de fúria no peito feito tormenta
quando não há nada a perder no que se tenta?

Passaram muitos anos sem mais saber
nem por onde paravam, nem se por ter
criado os dois no mesmo chão
eram ainda irmãos, partilhavam ainda o pão
e o silêncio enchia de morte o meu coração

Depois vieram novas que o que vivia
da miséria do outro, se enriquecia
não foi pra isto que andei
dias que foram longos e noites que não contei
a lutar pra ter a justiça como lei

Às vezes rogo pragas de os ver assim
sinto assim uma faca dentro de mim
sei que estou velha e doente
mas para ver o mundo girar dum modo diferente
'inda sei gritar, e arreganhar o dente

Estou quase a ir embora, mas deixo aqui
duas palavras pra um filho que perdi
não quero dar-te conselhos
mas s'é o teu próprio irmão que te faz viver de joelhos
doa a quem doer, faz o que tens a fazer

Regulação é preciso

Paulo Pedroso, deputado do P"S" e ex-ministro do Trabalho do Governo de António Guterres, defende a criação de uma instituição reguladora responsável pela qualificação dos portugueses.
Num país onde se pretende ultrapassar o défice de qualificação através de processos de certificação massificados e pouco exigentes e da obtenção de licenciaturas de duvidosa valia por métodos pouco ortodoxos, por mim, estou de acordo.
Mas, já agora, por analogia, defenderia também a regulação da Justiça. Talvez ficássemos a perceber como é que arguidos indiciados da prática de dezenas de crimes podem ser simplesmente ilibados, como se tudo se resumisse a uma gigantesca cabala (ou campanha negra, como agora se diz) de forças ocultas.

Há cães raivosos no P"S"

O P"S" está cada vez mais unido. Tão unido que até lembra a União Nacional. Seguranças não faltam — aqui, aqui e aqui.
Com tantos e tão fiéis cães raivosos, Sócrates nem precisa de se preocupar.
No lugar de Alegre vacinava-me.

Corja de chico-espertos num país de otários

No princípio era a Ota. A margem esquerda era um deserto e em Alcochete, jamais!
Mas, a obstinação da trupe que supostamente governa este sítio é tal que, o que num dia é verdade, no dia seguinte é mentira. Desde que o aeroporto vá para a frente.
Para trás ficará, como sempre, o país, cada vez mais endividado, cada vez mais pobre, cada vez mais adiado. País de otários que há trinta anos aceita ser governado por uma corja de chico-espertos.

Tarde demais

O Parlamento Europeu (PE) aprovou hoje em Estrasburgo um relatório da deputada socialista portuguesa Elisa Ferreira sobre o plano de relançamento da economia europeia, com uma referência à necessidade de combater os "off-shores", ou paraísos fiscais.
Oxalá esteja enganado mas parece-me uma iniciativa do tipo é-preciso-mudar-alguma-coisa-para-que-tudo-fique-na-mesma. Mas, mesmo que seja levada a sério, peca por tardia. Dificilmente iremos saber onde param os quatro milhões que alguém recebeu para que o Freeport tenha sido licenciado da forma como foi: numa área protegida, em tempo recorde, por um governo de gestão.

terça-feira, março 10, 2009

Cantigas do Maio (2)

Final

(Um beco com saída, 1975)
Palavras, música e voz — Fausto Bordalo Dias

mais de mil léguas
eu andei
fiz quase tudo
o que nao sei
quem nos rouba
tem forma de balão
à frente
mas eu tenho na mão
um alfinete

e quanto mais perco
eu mais ganho
esta raiva surda
p'ra estoirar
farto de lamber
o fundo ao prato
sapato
vou dar um pontapé
para isto acabar
vou dar uma volta
ai isto vou
que a força
nunca se esgotou

e se mil anos eu vivesse
mil anos havia de lutar

À segunda só cai quem quer!

Pensava eu que eram sobretudo os trabalhadores, os pequenos e médios empresários, os pensionistas e reformados, que sofriam com a precariedade da economia e a instabilidade social dela decorrente. Mas afinal, parece que os Presidentes da República também sofrem com a maçada de terem de encontrar soluções governativas quando os irresponsáveis dos eleitores não viabilizam governos de maioria absoluta.
É, pelo menos, o que se depreende das palavras de Jorge Sampaio, que não hesita em pedir aos portugueses que dêem uma nova maioria (implicitamente) ao P"S". Como se, sob a actual maioria "socialista", o bem-estar e a felicidade da maior parte da nossa população tivessem aumentado. Como se, por acção ou omissão, a governança P"S" não tivesse contribuído para o agravamento das desigualdades sociais, o crescimento da pobreza e do desemprego, o alastramento da corrupção e a vergonhosa distribuição de mordomias e prebendas aos correligionários e amigos. Como se os portugueses fossem uma cambada de parvos e de masoquistas.
Dr. Sampaio, o senhor saberá por que lhe interessa uma nova maioria do Partido "Socialista". Mas compreenderá que a maior parte dos portugueses sabe, porque o sentiu na pele durante os últimos quatro anos, que não é isso que lhe convém.
É que, como soi dizer-se, "à primeira todos caiem, à segunda só cai quem quer"!

Com apelos não vamos lá

Alberto João Jardim tem uma propensão inata para a demagogia barata mas desta vez tem razão: a sustentabilidade da economia exige a manutenção do emprego e, com ele, da procura interna, o que, para ser alcançado, mais do que a estafada receita da moderação ou até do congelamento salarial, o que exige é a redução dos lucros obscenos das grandes empresas — algumas em regime de monopólio e largamente participadas pelo Estado — e dos salários milionários dos seus gestores.
João Jardim falha apenas num decisivo aspecto: esquece que os problemas económicos (e já agora, sociais) não se resolvem com apelos mas antes com políticas esclarecidas e corajosas e um Estado capaz de as aplicar. O que, de todo, não está a acontecer.

segunda-feira, março 09, 2009

Cantigas do Maio (1)

A partir de agora vamos publicar, com a regularidade possível, cantigas. Do Maio, naturalmente. Do Zeca, mas também de outras vozes. Incomodadas e incómodas, como são as vozes de todos os que resistem cantando. E começamos, obrigatoriamente, com…

Cantigas do Maio

(Cantigas do Maio, 1974)
Palavras, música e voz — José Afonso

Eu fui ver a minha amada
lá prós baixos dum jardim
dei-lhe uma rosa encarnada
para se lembrar de mim

Eu fui ver o meu benzinho
lá prós lados dum passal
dei-lhe o meu lenço de linho
que é do mais fino bragal

Minha mãe quando eu morrer
ai chore por quem muito amargou
para então dizer ao mundo
ai Deus mo deu ai Deus mo levou

Eu fui ver uma donzela
numa barquinha a dormir
dei-lhe uma colcha de seda
para nela se cobrir

Eu fui ver uma solteira
numa salinha a fiar
dei-lhe uma rosa vermelha
para de mim se encantar

Minha mãe quando eu morrer ...

Eu fui ver a minha amada
lá nos campos eu fui ver
dei-lhe uma rosa encarnada
para de mim se prender

Verdes prados verdes campos
onde está minha paixão
as andorinhas não param
umas voltam outras não

Minha mãe quando eu morrer...

Vale mais tarde do que nunca

A prepotência, o autismo e a incompetência são as marcas distintivas da actual equipa do Ministério supostamente chamado da Educação. Mas os seus colaboradores regionais não lhe ficam atrás, conseguindo até, no caso da Directora Regional do Norte, suplantá-las largamente.
Desde as asneiras que cometeu em eleições de conselhos executivos que levaram à condenação judicial do ministério, ao atropelo da autonomia escolar obrigando escolas a proceder ao contrário das decisões dos seus legítimos órgãos, passando pela forma inábil e insensata como lidou com o problema da violência escolar e o modo autoritário, repressivo e insultuoso como trata os professores, Margarida Moreira, que para cúmulo, dá um triste exemplo de utilização da língua portuguesa nos novelos de prosa que redige, é uma calamidade, uma desgraça, um abcesso que terá de ser urgentemente extirpado, para alívio das escolas nortenhas, que há muito sofrem com a sua cega tirania.

domingo, março 08, 2009

Uma questão de (falta de) carácter

Não deixa de ser paradoxal que tenha sido precisamente um dos dirigentes do P"S" com menos carácter e verticalidade, exemplo acabado de fiel lacaio do chefe, sempre colado ao poder, a acusar Manuel Alegre de "falta de carácter" por, numa entrevista que deu, ter afirmado que, se a lei o permitisse, candidatar-se-ia às eleições legislativas como independente.
Almeida Santos optou por desvalorizar o incidente considerando que, nessas circunstâncias, tratar-se-ia do uso de um direito.
José Sócrates, habituado a pintar de rosa a realidade negra do país, adopta aqui a mesma táctica. Ignora a polémica e afirma que o P"S" é "um referencial de estabilidade e de unidade na vida política portuguesa".
A verdade é que a unidade está longe de ser um dado adquirido.
Sócrates, já terá reunido por duas vezes com Manuel Alegre, certamente convidando-o a integrar as listas do partido, mas este põe como condição não abdicar de valores como a revogação do código laboral, a suspensão do modelo de avaliação dos professores, a abolição das taxas moderadoras, os serviços públicos a funcionar de acordo com uma lógica de interesse geral e não de parcerias público-privadas. Acredito que assim continue. É este o carácter que vermes como José Lello nunca terão.

Dia Internacional da Mulher

Cantar Alentejano

(Cantigas do Maio, 1974)
Palavras, música e voz — José Afonso


Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer

Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou

Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou

Aquela pomba tão branca
Todos a querem p´ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti

Aquela andorinha negra
Bate as asas p´ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar

Só agora descobriram? É tarde.

Dez milhares de professores foram mais do que suficientes para fazer um longo cordão humano entre o Ministério da "Educação" e a Assembleia da República, com passagem obrigatória pela Sede nacional do P"S", no Largo do Rato, brindada com uma nuvem de lenços brancos e um coro de acusações à política educativa e ao modelo de avaliação do governo "socialista".
Foi sobretudo um protesto simbólico mas, num momento em que a clique ministerial, apoiada nos seus acólitos das direcções regionais e nos "funcionários" de uma parte dos conselhos executivos das escolas, tudo tem feito para vergar os professores, através da ameaça e da chantagem, serviu para mostrar que a chama da indignação dos docentes, longe de se apagar, continua acesa e, se a intransigência monolítica da pedreira da 5 de Outubro se mantiver, irá alastrar até ao fim do ano, com sérias consequências para a estabilidade das escolas mas também, a cinco meses das eleições, para as contas eleitorais do P"S".
Com a ministra mais impopular do governo a fazer voto de clausura, para não baixar mais o resultado do partido nas sondagens, é o secretário Pedreira a mandar as costumeiras calhoadas, acusando os sindicatos de "inflexibilidade" e "hipocrisia" e, num curioso exemplo de inflexibilidade, garantir que o Ministério não cederá mais.
Perante este cenário, antevendo o perigo de virem a perder alguns tachos, digo, lugares no parlamento, o rebanho parlamentar do P"S" admite [agora] que algumas medidas de política educativa do Governo "não correram muito bem". É caso para lhes perguntar o que andaram a fazer durante quatro anos para só agora terem chegado a essa conclusão?!…

sábado, março 07, 2009

Corrigir os erros

Nem de propósito… Na posta anterior aludimos à forma criativa como na tugalândia se brinca com a Língua (refiro-me à nossa pátria, como lhe chamou Pessoa, e não ao órgão bucal, com o qual ainda teremos muito que aprender a brincar…). Mas isso não passa de uma infeliz normalidade quando a brincadeira começa com quem tem a responsabilidade de combater este problema. Três (entre muitos outros) exemplos…

O polémico e discutível Acordo Ortográfico vai ser implementado, já no próximo ano lectivo, em algumas escolas. Mesmo que os professores estejam apreensivos com a falta de formação específica para lidar com a nova situação e as editoras questionem a forma como o acordo vai ser concretizado. A confusão que daqui pode advir é mais do que previsível.

Não podemos admirar-nos de que a maioria dos portugueses fale mal e escreva pior. É o resultado de uma Educação que desgraçadamente tem subestimado a riqueza que é a nossa Língua. O que é verdadeiramente chocante e inaceitável é a forma como os responsáveis políticos e administrativos a maltratam. Nos actos, mas também nas palavras. Desde o "hádem", de Jorge Coelho, ao carnaval da sintaxe da Directora de Educação Regional do Norte, o anedotário é tristemente vasto.

E finalmente o Magalhães, essa jóia da coroa do socrático choque tecnológico. Também ele a brincar com a Língua Mátria. Parece que a celeridade na entrega do brinquedo não foi grande mas, mesmo assim, não se evitaram erros linguísticos em algumas das aplicações.

Mas tudo isto são erros menores. Erros realmente graves são os próprios políticos que, mais do que governar o país, se têm governado à nossa custa. Erros que só nós podemos corrigir.

sexta-feira, março 06, 2009

Crises

Rua de Santo António, Faro (Obrigado ao Luís G.)

Três ilações a tirar desta pérola:
  1. As Novas Oportunidades, tal como as licenciaturas da Independente, não resolvem as crises de ortografia e de iliteracia.
  2. Não há nada, nem mesmo uma crise, que destrua a criatividade e o humor tugas, em matéria de linguagem.
  3. Afinal, a crise da indústria pornográfica não acontece só na América. Com o preço da queca a cair abaixo dos 10 euros (com um soutien de brinde), a crise também chegou a Portugal.
Mais problemas para o cansaço do Primeiro-ministro.

Cansados estamos nós

Denunciando alguma insatisfação com  o desempenho do governo, o patrão da Jerónimo Martins diz que o Primeiro-ministro está obcecado com o Bloco de Esquerda e o PCP e é um homem cansado.
Quanto à primeira parte da afirmação, Sócrates apenas se pode queixar de si próprio pois, apesar de liderar um partido historicamente de esquerda, tem levado por diante a política mais impopular e à direita de que há memória, desde o 25 de Abril.
Quanto ao resto, cansados (e muito…) de Sócrates e das suas mentiras e falsas promessas estamos nós, trabalhadores (empregados e sem emprego), pequenos e médios empresários, reformados, jovens e estudantes, enfim a maioria da população, vítima de uma política forte com os fracos e subserviente com os poderosos (que, pela amostra, parecem não estar ainda satisfeitos…).

Há grandes vidas

"O Parlamento Europeu vai instituir um salário único para evitar diferenças de ordenado entre os deputados dos vários países. A nova regra beneficia, entre outros, os eurodeputados de Portugal. Os portugueses com assento no Parlamento Europeu vão passar a ganhar 7665 euros brutos, em vez dos 3815 euros que recebiam até agora. Ou seja, mais 3850 euros brutos por mês."
Caso para dizer que "quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não percebe da arte"! 

Manter as taxas… e os tachos!

As taxas impropriamente ditas moderadoras de cirurgia e internamento são absolutamente inaceitáveis e um atentado ao Serviço Nacional de Saúde por três ordens de razões:
  1. São inconstitucionais uma vez que o Artigo 64.º da Constituição da República garante que "o direito à protecção da saúde é realizado através de um serviço nacional de saúde universal e geral […] tendencialmente gratuito";
  2. As cirurgias e os internamentos são actos médicos que não dependem da vontade dos utentes; e
  3. O custo destas taxas revela-se já incomportável para uma parte significativa da população, designadamente os 20 por cento que vivem abaixo do limiar da pobreza.
Por isso, de há muito que todos os partidos da oposição e alguns deputados do P"S", incluindo o fundador do SNS, António Arnault, defendem e propõem a sua extinção.
Decididamente, o sectarismo, o partidarismo e a falta de sentido de Estado desta gente não têm limites!… Em nome da manutenção do Poder e dos tachos!…

Pois canté!

O ano passado, os lucros da Galp atingiram qualquer coisa como 478 milhões de euros. Para esta cifra muito contribuiu o crescimento de quase 200 por cento, correspondente a um aumento de 125 milhões, verificado no último trimestre do ano.
Estes resultados, verdadeiramente obscenos, devem-se ao abusivo aumento de 25 por cento das margens de refinação, mas sobretudo ao roubo — é o que se deve chamar-lhe — de 105 milhões de euros, proveniente da lentidão e do atraso deliberados no acerto dos preços pelos valores do mercado internacional.
Num mercado dominado pelo monopólio da distribuição e a cartelização das principais empresas de venda, com um governo e um regulador que falam mas não fazem nada, a privatização da Galp e a liberalização dos preços só podia dar nisto: somos um dos países da União Europeia onde os combustíveis são mais caros.

Os lucros da EDP, por seu turno, registaram, em 2008, um crescimento de 20 por cento, alcançando 1092 milhões de euros, valores apenas possíveis por sermos o quinto país da União Europeia onde a electricidade é mais cara. Apesar de, por via disso e devido à crise, os cortes no abastecimento por falta de pagamento serem cada vez mais frequentes.

E depois disto, ainda há quem tenha a distinta lata de afirmar de cátedra que a solução para a crise está no congelamento (ou mesmo na redução) dos salários!… Se foi a voragem capitalista e a especulação insaciável que a ela conduziram, "os ricos que paguem a crise", "pois canté"!



quinta-feira, março 05, 2009

O TPI é só para alguns?

O presidente do Sudão mandou o Tribunal Penal Internacional (TPI) "comer" o mandato de captura que visa levá-lo a julgamento pela alegada responsabilidade na morte violenta de 35 000 pessoas na região de Darfur. O Sudão não reconhece o TPI e afirma que nunca entregará Al-Bashir para que ele venha a ser julgado em Haia.
Ninguém deveria estar acima do Direito Internacional e todos os crimes de guerra, genocídios e violações dos Direitos Humanos deveriam ser implacavelmente julgados e exemplarmente punidos. Sobre isso não pode haver a mais pequena dúvida.
Porém, o que se verifica é que países considerados democráticos também não reconhecem o TPI e são, frequentemente, os primeiros a desrespeitar a ordem jurídica internacional, como acontece com os EUA, que só no Vietname e no Iraque fizeram mais de 3 milhões de vítimas mortais, e Israel que, durante cerca de sessenta anos já liquidou dezenas  de milhares de palestinianos.
Se o TPI quer ser respeitado deve dar-se ao respeito. No Direito Internacional não pode haver dois pesos e duas medidas.

A direita não faz falta

A receita de José Silva Lopes para enfrentar a crise passa exclusivamente pelos salários:  congelar os "normais" e reduzir os mais elevados. Dos lucros chorudos dos grandes capitalistas e das mais-valias obscenas dos especuladores não fala e da política fiscal, que poderia ser um precioso instrumento de correcção das desigualdades sociais e da mais injusta repartição de rendimento da União Europeia, nada diz.
O antigo governador do Banco de Portugal, que gosta de se autoproclamar de esquerda, afirma que “temos de adoptar medidas não ortodoxas”, mas a panaceia que propõe é do mais antipopular e ortodoxo que se poderia imaginar.
Com economistas destes e governos como o actual, a direita não faz falta.

quarta-feira, março 04, 2009

Reformas… ou revoluções?

Segundo um estudo da OCDE, daqui a 20 anos, com a aplicação do novo sistema de pensões, o valor das reformas dos trabalhadores seria pouco mais de metade do último salário auferido, desgraça que obviamente não atingiria as mordomias e prebendas dos gestores e encarregados de negócios do grande capital.
Afirmo seria porque este cenário assenta no pressuposto de uma normal evolução do sistema capitalista, a qual já não está a acontecer e muito provavelmente não mais será recuperada. A actual crise do capitalismo é sistémica e vai obrigar a uma mudança do paradigma económico e social. De preferência pela via reformista. Caso contrário, ante a miséria e o desespero, a sobrevivência da espécie humana conduzirá inevitavelmente a violentas convulsões sociais ou mesmo revoluções. Mais cedo ou mais tarde. Pólvora já há, cada vez mais. 

terça-feira, março 03, 2009

A jangada de pedra

A grande maioria dos portugueses acha que a segurança piorou em 2008. Talvez seja por isso que um em cada cinco tem uma arma e existem por aí cerca de um milhão e quatrocentas mil, ilegais.
Mas a insegurança começa já dentro de casa, com cortes cada vez mais frequentes no abastecimento de água e de electricidade por falta de pagamento, e passa pela falta de trabalho, com o desemprego a atingir mais de meio milhão de pessoas.
Se a tudo isto juntarmos o agravamento da injustiça social, o empobrecimento de uma parte significativa da população e o aumento da corrupção nos últimos quatro anos, facilmente se conclui que o cenário optimista que o primeiro-ministro tanto gosta de pintar está nos antípodas da realidade com que nos confrontamos.
Por este andar, esta jangada de pedra afasta-se cada vez mais da Europa desenvolvida, rumo ao Terceiro Mundo!…

Dois pesos, duas medidas

Muito eloquente e óbvia a promessa de Clinton de que os EUA apoiarão qualquer governo israelita. De resto, outra coisa não seria de esperar de quem apadrinhou e sustentou a fundação do estado sionista à custa da sistemática destruição da nação palestina.
Naturalmente que em relação à outra parte já não adopta semelhante posição, mesmo que o governo do Hamas tenha resultado de eleições tão democráticas e livres quanto as israelitas, e as suas acções terroristas, condenáveis, sem dúvida, sejam incomensuravelmente menos letais que o terrorismo devastador e genocida de Israel.
Ao mesmo tempo promete 900 milhões de dólares para reconstrução daquilo que os seus amigos espatifaram. É o preço para aliviar a má consciência. Aos milhares de vidas criminosamente ceifadas é que não há nada que os pague.
 

Daqui ninguém sai vivo

Não cometo qualquer exagero quando afirmo que o capitalismo está agónico. São cada vez mais devastadoras as evidências dessa realidade.
A História prepara-se para encerrar um capítulo a um tempo grandioso e vergonhoso.
Contra a ganância imoral de uma minoria, temos de ser capazes de construir um Futuro diferente, assente na solidariedade e na justiça social. Senão, como diria Jim Morrison, "daqui ninguém sai vivo"!

segunda-feira, março 02, 2009

A proletarização dos professores

O estabelecimento de quotas para as classificações mais elevadas — "Excelente" e "Muito Bom" — faz tanto sentido na avaliação do desempenho dos docentes (ou de outro qualquer grupo profissional) como na dos alunos, ou seja, nenhum. 
Trata-se, com efeito, de uma grosseira violação do princípio constitucional da igualdade dos cidadãos perante a lei, na medida em que não garante que todos, sem excepção, obtenham a classificação correspondente ao seu efectivo desempenho profissional.
A avaliação, se isso lhe podemos chamar, com todo o cortejo de aberrações e enormidades que a constituem, não prossegue objectivos pedagógicos e formativos. É, isso sim, um filtro para proletarizar a maioria dos professores e, deste modo, reduzir os custos com a Educação.

domingo, março 01, 2009

O congresso da União Nacional

Descontando o PSD, mais preocupado com a pompa e circunstância do Conselho Europeu, toda a oposição foi unânime sobre o verdadeiro interesse do congresso do P"S".
O CDS considerou-o "decepcionante" e "com pouco para o futuro",  o PCP afirma que ele serviu para "esconder a situação desgraçada a que o PS e o Governo conduziram o país", o Bloco de Esquerda diz que "os socialistas estão sem propostas que mobilizem os portugueses" e, para a CGTP, o "P"S" está "mais preocupado em manter poder do que em discutir o país".
Por mais incrível que pareça, todos têm razão. 
Tratou-se apenas de um ritual para exorcizar a campanha negra da comunicação social, um Te Deum de acção de graças ao querido líder José Chico-Esperto Sócrates. A lembrar os tempos do "orgulhosamente sós" da União Nacional salazarista.

A corrupção compensa

Processos de enriquecimento ilícito arquivados por falta de provas e carência de meios? Condenações por corrupção activa com penas de 5 mil euros? Não haja dúvidas de que, em Portugal, há um certo tipo de crime que compensa. E muito.
Maria José Morgado diz aquilo de que todos nós já suspeitávamos, que as leis favorecem a corrupção. E o P"S", que em 2007 impediu a criminalização na lei portuguesa do ‘enriquecimento ilícito’, como propunha João Cravinho, afasta-o da vez da Comissão Nacional. Antes que ele se lembrasse de voltar à carga.
Corruptores activos e passivos podem dormir descansados com o actual poder político.

Portugal às escuras

  1. Quem faz parte de um partido em que muitos dos seus mais destacados dirigentes e militantes, mascarados de socialistas, outra coisa não têm feito senão aproveitar-se da política para tratar da vidinha — julgo não ser preciso citar nomes… — não tem qualquer autoridade moral para acusar outros, sem qualquer fundamento, de usarem máscara e serem parasitas. Antes de falarem, deveriam ver-se ao espelho…

  2. José Sócrates pediu uma nova maioria absoluta e definiu o combate ao desemprego como a primeira prioridade da sua governação.
    Seria bom que os portugueses se lembrassem que, há quatro anos, ele também promete, entre outras coisas, criar 150 000 novos postos de trabalho e o que hoje temos é mais de meio milhão de desempregados.
    É claro que tirar uma licenciatura por fax ou comprar uma casa por metade do preço é bem mais fácil do que resolver os problemas do país mas do que nós verdadeiramente precisamos é de um primeiro-ministro e não de um chico-esperto.

  3. Há uma esquerda no P"S"? Tenho sérias dúvidas…
    Não basta cantar a liberdade como ninguém. Mais do que uma palavra, a liberdade é uma afirmação, um exercício, uma luta permanente (mesmo que silenciosa).

  4. O governo autocrático de Sócrates interrompeu o normal funcionamento da democracia e agravou as condições de vida dos portugueses. A isto chamo eu um apagão. De que brevemente nos livraremos, espero.

sábado, fevereiro 28, 2009

A agonia do capitalismo

A crise é só para alguns. 2008 foi um ano negro para o sector automóvel, mas a Rolls Royce conseguiu […] o melhor ano de vendas em toda a sua história. [Diário Económico]
A crise em que estamos literalmente mergulhados é, muito mais do que financeira e económica, social. Pode mesmo vir a ser mais radical que a Grande Depressão de 1929. Por isso muitos a consideram uma crise sistémica. Com ela, o sistema capitalista e a actual (des)ordem económica internacional têm os dias contados. Mais tarde ou mais cedo, a bem ou a mal. Metade da humanidade a (sobre)viver abaixo do limiar da pobreza e ultrajes como o que a notícia relata reclamam-no.

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Viva o Estado de Direito

Violar a Lei e não cumprir ordens judiciais pode, deve, tem de acarretar consequências. Mais ainda quando o infractor é o próprio Estado ou quem o representa. Ainda por cima, de forma incompetente e arbitrária.
Lamentavelmente, às vezes, demasiadas vezes, o Estado de Direito não funciona devidamente. Ainda bem que neste caso tal não aconteceu.

De cavalo para burro

"Entre 2000 e 2004, portanto nos quatro anos anteriores a Sócrates, a população empregada com o ensino básico ou menos diminuiu em Portugal em 200,4 mil, ou seja, à média de 50,1 mil por ano; e a população com o ensino secundário aumentou em 98,4 mil (24,6 mil por ano) e a com o ensino superior cresceu em 204 mil (51 mil por ano). No período 2004-2008, ou seja, nos quatro anos de governo de Sócrates, a população empregada com o ensino básico ou menos, diminuiu apenas em 119,2 mil (29,8 mil por ano), a com ensino secundário aumentou em 93,9 mil (23,5 mil por ano), e a com ensino superior cresceu em 100,3 mil (25,1 mil por ano). Isto significa que Portugal para atingir um nível de escolaridade semelhante ao que tinham os países da OCDE e da UE em 2006, ou seja, a população com um nível de escolaridade igual ou inferior ao básico completo representar apenas 31%, precisaria de 29 anos ao ritmo anterior à entrada em funções do governo de Sócrates, e de 51 anos ao ritmo de diminuição da população com o ensino básico ou menos verificada durante os quatro anos de governo de Sócrates. É claro o retrocesso com Sócrates.

O fracasso da reforma de ensino do governo de Sócrates e a desorganização que ela tem provocado em todo o sistema levou este governo a uma fuga para a frente. O governo de Sócrates criou um programa a que chamou "Novas Oportunidades" que tem como objectivo dar milhares de diplomas do 12º ano.

É desta forma que o governo pretende alterar as estatísticas sobre o baixo nível de escolaridade da população empregada, e isso é o que parece ser mais importante para este governo, preocupando-se pouco com os efeitos que isso poderá ter futuramente no processo de desenvolvimento do País." (Eugénio Rosa, em resistir.info)

Caso para concluir que, por mais loas que alguns teçam à política educativa de José Sócrates, com o senhor engenheiro andamos de cavalo para burro (salvo seja).
E quanto à farsa das "Novas Oportunidades", outra coisa não seria de esperar de um chico esperto que obteve uma licenciatura recorrendo aos subterfúgios que todos sabemos.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

EUA, uma república das bananas?

"Ao continuar a apoiar os instrumentos do Tesouro americano, a China reconhece a nossa interdependência. Claramente, vamos sair disto juntos ou cair juntos".
Palavras de Hillary Clinton, que pediu à China, que é a primeira detentora de títulos do Tesouro norte-americano, para continuar a comprá-los , numa altura em que a maior economia mundial enfrenta o crescimento da sua gigantesca dívida , há muito tempo financiada pelo investimento de países estrangeiros em obrigações emitidas pela Reserva Federal americana (FED).
Porém, há quem pense que não só a China, mas também o Japão e a Arábia Saudita, países que detêm quantidades enormes de títulos da dívida do Tesouro dos EUA, querem é vendê-los antes que desvalorizem ainda mais. E, como os americanos já não conseguem poupar, só resta à FED imprimir "nota verde" para comprar Títulos do Tesouro e, desse modo, financiar a Administração.
Quando isto acontecer — e receio que não falte muito — o dólar americano deixará de ser divisa de reserva, deixará de ter valor, passará a divisa de uma "república das bananas".
Os EUA deixarão de poder pagar as importações, um problema grave para um país dependente de energia, bens manufacturados e produtos de tecnologia avançada. [cf. Paul Craig Roberts, aqui]
Pensam que isto é ficção? Os próximos meses, sim meses, encarregar-se-ão de mostrar que é muito ténue a fronteira entre a ficção e a realidade.

O governo do "povo" (leia-se polvo)

Ao fim de quatro anos de governo-Sócrates o desemprego atinge 574 200 portugueses, dos quais, apenas 262 300 recebem o correspondente subsídio.
Mesmo considerando que estamos perante uma crise económica generalizada, para quem apregoou que durante esta legislatura iria criar 150 000 novos postos de trabalho, trata-se de um resultado pouco menos do que catastrófico, tanto mais inaceitável quão criminosa é a forma como têm sido esbanjados milhões do erário público para colmatar as obscuras negociatas de banqueiros sem escrúpulos e cobrir os prejuízos dos especuladores.
E diz José Sócrates que o P"S" é o partido socialista da esquerda popular! Olha se não fosse…

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Já bastaram 48 anos de censura!

Depois da proibição do Ministério Público a uma sátira do Carnaval de Torres Vedras ao Magalhães, por causa de um minúsculo autocolante com umas mulheres vagamente desnudadas (proibição que, de tão ridícula que foi, haveria de ser levantada), foi agora a vez da polícia de Braga invadir uma feira de livros e apreender alguns exemplares em cuja capa é reproduzido o quadro "A Origem do Mundo", do pintor realista Gustave Courbet, os quais, para os zelosos agentes, mais não são do que material pornográfico, pelos vistos, mais ofensivo que o estendal de revistas, essas sim, efectivamente pornográficas, que se vendem na maioria dos quiosques do país.

É certo que estamos numa quadra propícia a este tipo de palhaçadas (sem qualquer ofensa aos verdadeiros palhaços, cuja arte aprecio). No entanto, porque já vi este filme noutros tempos, não posso deixar de ficar inquieto. É que não aceito de forma alguma que ignorantes, fardados ou não, se arvorem em polícias de costumes e guardiões da moral pública. Já bastaram 48 anos de censura!

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

O que faz falta é acordar a malta

A carta que há dois anos escrevi ao Zeca, com as palavras que ele nos deixou, permanece dolorosamente actual.
Ele bem queria que esta fosse uma terra da fraternidade mas, vinte e dois anos depois do seu falecimento (e trinta e cinco após Abril), por cá, quem trepa no coqueiro é o rei e os vampiros continuam a chupar o sangue fresco da manada.

Num tempo em que a injustiça social é mais aguda que nunca e a democracia jamais esteve tão adormecida, o que faz falta é acordar a malta.

Estarás sempre connosco, Zeca Afonso!

domingo, fevereiro 22, 2009

Não basta ser sério, é preciso parecê-lo!

Primeiro, a história mal contada da licenciatura por fax. Depois, a telenovela do licenciamento relâmpago do Freeport, as cunhas do tio Júlio e o misterioso desaparecimento de quatro milhões de euros, de luvas. E a assinatura de projectos de moradias, feitos por outros, na Câmara da Guarda. E mais a compra do andar da mãe numa empresa sediada num paraíso fiscal. E ainda a declaração do prédio onde mora por um valor muito inferior ao seu verdadeiro preço. E agora a nomeação de homens de confiança nos cargos mais diversos criando uma rede tentacular de influência. Enfim, cada cavadela, cada minhoca — num país onde a Justiça é lenta e frouxa perante os fortes, ainda bem que a imprensa é livre e corajosa!
Depois de todos estes indícios — e a procissão ainda vai no adro — José Sócrates até pode nem vir a ser constituído arguido e, muito menos, condenado do que quer que seja, mas além de já ser tido por mentiroso, de uma coisa não se livrará mais: a suspeita de um comportamento falho de seriedade e de transparência. E a um primeiro-ministro, como à mulher de César, não basta ser sério, é preciso parecê-lo!

É bom mas não chega!

Na maioria dos casos, as escolas portuguesas não são propriamente locais confortáveis e seguros. No inverno, tirita-se de frio, no verão, assa-se com o calor, e durante todo o ano, as coberturas de amianto põem em risco a saúde de quantos lá estudam ou trabalham.
Mas a sua requalificação, que há muito urgia, vai finalmente acontecer. É bom.
Mesmo que seja apenas a pretexto do combate à crise e ao desemprego.
Mesmo que as obras, decorrendo numa altura crítica do calendário escolar, venham a perturbar, inevitavelmente, as condições de trabalho de alunos e professores.
Mesmo que tudo isto, incluindo a necessária renovação de equipamentos e difusão de novas tecnologias, de nada valha se não for acompanhado de uma política educativa baseada no rigor e exigência das aprendizagens e na valorização dos recursos humanos.
É que, por mais Magalhães que se distribua às crianças, por maior que seja o choque tecnológico, por mais modernas que sejam as nossas escolas, se os professores continuarem a ser desautorizados, ofendidos, humilhados, a Escola Pública não terá futuro. Com tudo o que isso representaria de trágico para o país.

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

P"S", do lado errado da história

António Arnault, socialista convicto (uma espécie em vias de extinção, como já aqui referi) que ainda mantém o vínculo ao partido que ajudou a criar e fundador (e utente, como orgulhosamente confessa) do Serviço Nacional de Saúde, defendeu ontem à noite na SIC Notícias, com a frontalidade que o caracteriza, a extinção das taxas moderadoras:
"Faço um apelo veemente à direcção do grupo parlamentar do PS e a todos os deputados para que votem a eliminação das taxas moderadoras respeitantes a cirurgias e internamento [porque] não constituem, verdadeiramente, taxas moderadoras [mas antes] uma forma de co-pagamento, interdito pela Constituição da República."
E acrescentou:
"Não gostaria de ver o meu partido ficar do lado errado da história, num tempo de tantas dificuldades para a grande maioria dos portugueses e quando se aproxima o 30.º aniversário do SNS, de cuja criação se deve orgulhar."

As reacções não se fizeram esperar.
O líder do rebanho parlamentar do P"S", dando uma no cravo e outra na ferradura, admitiu a necessidade de discutir a questão das taxas moderadoras, mas classifica as propostas da oposição para a sua revogação como "medidas políticas para criar dificuldades ao Governo". Alberto Martins, que certamente não é utente do SNS, esquece que as taxas moderadoras são, elas sim, medidas políticas que criam dificuldades à população.
Já a Ministra da Saúde, seguindo a táctica habitual do governo de ignorar as críticas e os protestos, não comenta o apelo de Arnaut e insiste que "os portugueses têm que perceber que a saúde é muito cara". Como se os mais pobres, que são cada vez em maior número e não suportam o pagamento das taxas, o não tivessem já percebido há muito tempo!
Enfim, tenho muitas dúvidas que as palavras de António Arnault encontrem eco em políticos desta estirpe. Este P"S" há muito que está "do lado errado da história"!

Assim se "respeita" a autonomia das escolas!…

A Direcção Regional de Educação do Norte (DREN) contrariou hoje uma decisão do Conselho Pedagógico do Agrupamento de Escolas de Paredes de Coura – que decidira fazer a festa de carnaval dentro do estabelecimento – e ordenou ao Conselho Executivo que convoque os professores para fazerem o desfile pelas ruas, amanhã à tarde.
Em tempo, esta imposição da grotesca popota não é apenas um abusivo atentado à autonomia das escolas. Pior do que isso, é um acto absolutamente prepotente e discricionário, inaceitável numa sociedade que se pretende democrática. Mesmo que seja Carnaval.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Falta pouco para chegarmos ao Brasil!

Em 2005, o Banco Mundial asseverava que, não fora a corrupção que existe no nosso país e Portugal poderia atingir o nível de desenvolvimento da Finlândia
Acontece que, lamentavelmente, este verdadeiro crime de lesa-sociedade tem vindo a grassar de tal forma que, de 2005 a 2008, Portugal caiu do 26.º para o 32.º lugar da lista da Transparency International.
É provável que o fenómeno radique no défice de educação e cidadania da nossa população em relação aos nórdicos mas do que não há dúvida é que alguns dos nossos governantes e homens de negócios não são propriamente exemplos de transparência ou mesmo seriedade. Basta recordar os casos em que se envolveram alguns Presidentes de Câmaras Municipais, banqueiros e gestores, e até o Primeiro-Ministro.
E a Justiça, que poderia e deveria dar um decisivo contributo para combater o flagelo, arrasta penosamente os processos, que acabam quase sempre por ser arquivados, enquanto o Ministério Público, em vez de atacar o que devia, se preocupa sobretudo com as fugas de informação para a imprensa e, chega ao ridículo de censurar manifestações carnavalescas!
Com tanto carnaval ao longo do ano, em vez de nos aproximarmos da Finlândia, qualquer dia estamos é ao nível do Brasil!

Chocante

Em Portugal, a maioria dos pais não educa os filhos.  Porque não sabe fazê-lo, não está para se maçar com isso ou não arranja tempo para tal. Limita-se a despejá-los na Escola, raramente lá indo informar-se da sua aprendizagem. Alguns mais depressa lá passam para insultar ou esmurrar professores, prática infelizmente cada vez mais corrente num país cujo nível de educação e cidadania é inversamente proporcional ao número de telemóveis e computadores que as pessoas ostentam, onde o Estado, em vez de defender e valorizar os docentes enquanto pilares insubstituíveis da Educação, os desautoriza, humilha e vilipendia. 
Assim, não há choque tecnológico que nos valha. Que vai ser das novas gerações?

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Façamos de conta…

Os envolvidos no caso Freeport estão a prestar declarações no Departamento de Investigação e de Acção Penal (DCIAP) sobre o eventual pagamento de luvas para o licenciamento do outlet de Alcochete. Mas, se pensam que se trata de José Sócrates ou, ao menos, de Manuel Pedro, Charles Smith ou Júlio Monteiro, tio do Primeiro-Ministro, desenganem-se. Portugal é o país do faz-de-conta. Por isso, como ironiza Mário Crespo, "façamos de conta"…

Últimos capítulos da telenovela Freeportgate

Afinal, Manuel Pedro e Charles Smith foram mesmo interrogados pelo Ministério Público, da parte da manhã, e à tarde, foi a vez de prestar declarações o tio do Primeiro-Ministro
À saída do tribunal, Júlio Monteiro jurou a pés juntos que não foi constituído arguido mas a verdade é que o processo já tem arguidos.
O Zézito, como é tratado pelo tio Júlio, é que não pode ouvir os jornalistas falar em "Freeport". Foge deles como o diabo da cruz!…

Aguardemos pelos próximos capítulos mas não alimentemos demasiadas expectativas. É que o histórico do combate que (não) tem sido feito à corrupção no nosso país não nos deixa muito optimistas.

Imitar o pior

Entre os vinte e sete países da União Europeia, somos o que regista a maior desigualdade na repartição do rendimento, ou seja, aquele onde os ricos são mais ricos e os pobres são mais pobres (cf. Eurostat).
Caso para concluir que, desgraçadamente, Portugal imita o pior da América!

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Bush vive refastelado, Saddam foi enforcado

A invasão do Iraque foi um acto ilegal e prepotente, ao arrepio do Direito Internacional e das Nações Unidas. Mas, pior do que isso, foi um hediondo crime de guerra que redundou na destruição de um país e no genocídio de mais de um milhão de iraquianos.
Tudo a pretexto da pretensa busca de arsenais de armas de destruição em massa, que, na realidade, não existiam, e da destituição de um regime, ditatorial, é certo, mas que nada tinha a ver com Bin Laden e os terroristas da Al Qaeda e não constituía uma ameaça à segurança mundial.
Justificações esfarrapadas que cedo caíram no ridículo, ao mesmo tempo que se tornava claro que o pistoleiro Bush o que pretendia era confiscar o petróleo iraquiano e garantir chorudos negócios ao complexo industrial-militar americano.
Faltava ainda, no entanto, a "cereja em cima do bolo". E ela apareceu.
125 mil milhões de dólares, destinados à reconstrução do Iraque, ter-se-ão esfumado por obra e graça de altas patentes militares dos Estados Unidos, naquela que poderá ser a maior fraude da história americana.
Entretanto, o grande responsável por esta tragédia e, graças à sua desmiolada política, é preciso não esquecê-lo, pela insegurança e a crise que o mundo atravessa, vive refastelado no seu rancho do Texas. Por muito menos do que isso, Saddam Hussein foi enforcado.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Espécie em vias de extinção

No P"S" impera o unanimismo, o medo, a fidelidade canina. É o preço que não hesitam pagar aqueles que apenas pretendem tratar da sua vidinha e alcançar aquilo que pelos seus méritos pessoais, por si só, não conseguiriam.
Mas no partido de Sócrates ainda há militantes com princípios, valores, coluna vertebral, numa palavra, socialistas. Lamentavelmente, uma espécie em vias de extinção. Como o lince da Malcata.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Que socialismo?

Que os grandes grupos económicos são o "ambiente propício" para o uso de expedientes que levam à perda de receita fiscal do Estado e, por isso, "deverão constituir o alvo prioritário da administração fiscal", como refere um relatório da Inspecção-Geral de Finanças, nós já sabíamos.
O que também agora ficamos a saber é que as medidas adoptadas pelo Governo para combater essa situação ficaram aquém das propostas da IGF.
Por alguma razão Portugal continua ser um dos países europeus com maior desigualdade social.
Apesar de ter um governo que se autoproclama socialista.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

'Fonte de males'

O ex-ministro da Educação, Marçal Grilo defendeu ontem que a Educação em Portugal necessita de "menos Ministério e mais escola e, entre outras tarefas, é necessário mobilizar os professores". E acrescentou que "as escolas têm que ser ouvidas, os sindicatos devem ter o papel de pugnar pelos interesses sindicais dos professores e os professores têm que ter uma voz no seu relacionamento com os pais e com os estudantes".
Nada de mais verdadeiro e urgente. Mas impraticável, com a o actual governo.
Do que já duvido é que "finalmente, o país e as famílias [tenham percebido] que não basta andar na escola e passar de ano, [e] é preciso saber"…
É que, também aí, a trupe da 5 de Outubro tem grossas culpas, com a sua política educativa virada para um sucesso escolar meramente estatístico e assente numa cultura de facilitismo, de falta de rigor e de exigência.
António Barreto chamou-lhe, há tempo, "fonte de males". É, por isso, imperioso e inadiável isolar aqueles fulanos por um cordão sanitário. A bem do interesse nacional e da saúde das escolas portuguesas.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Os fora-da-lei

Os 21 dias da ofensiva israelita contra Gaza, destinada a pôr fim ao disparo de “rockets” contra o seu território, saldou-se na morte de 1300 palestinianos, na sua maioria civis, entre eles centenas de crianças. Entre as acções mais contestadas está o ataque contra uma escola gerida pelas Nações Unidas, em Jabaliya, que provocou a morte de 40 civis que ali estavam refugiados. A Amnistia Internacional acusou também Israel de ter lançado bombas de fósforo branco, cujo uso é proibido em zonas com “concentrações de civis”.
Entretanto,
o procurador-geral do Tribunal Penal Internacional (TPI) fez saber que está a proceder a um “exame preliminar” das queixas relativas a crimes de guerra cometidos por Israel na Faixa de Gaza, [mas] faz questão de sublinhar que “este exame preliminar não significa que vai ser aberto um inquérito”.
Perante tamanha e evidente monstruosidade, o senhor procurador-geral do TPI pensa… pensa… pensa… e nada me admiraria que decidisse mesmo não abrir inquérito. Sobretudo porque o alegado criminoso não é um estado qualquer. É Israel, que, tal como os Estados Unidos da América e a China (todos bons rapazes!), não é signatário do Tratado de Roma, que instituiu o TPI.
Enfim, como já se tinha comprovado com a invasão do Iraque, o Direito Internacional e o TPI não são como o sol, que quando nasce, é para todos!

E se Chavez fizesse o mesmo?…

A pretexto de uns morteiros artesanais — raramente provocam vítimas ou estragos de monta — que, em abono da verdade, começaram por responder à violação da trégua por parte de Israel e mais não são do que o estertor de alguém a quem praticamente tudo é negado, uma das máquinas de guerra mais poderosas do mundo não hesita em bombardear cegamente um "campo de concentração" de apenas 360 quilómetros quadrados onde sobrevive, estoicamente, encurralado, cerca de 1 milhão e meio de seres humanos.
Os israelitas não aprenderam nada com a 2.ª GM. Ou antes, aprenderam. A comportar-se como os seus algozes.
E depois ainda acusam Chavez???… De quê?… Só se for de ter dito a verdade?!… Imaginem o que seria se o presidente venezuelano se "lembrasse" de fazer, aos 15 mil judeus que vivem na Venezuela, o mesmo que os sionistas fazem aos palestinos de Gaza!!!…
Claro que isso nunca acontecerá! O homem pode ter lá as suas coisas mas o seu cadastro está sumamente mais limpo do que o dos carniceiros Ariel Sharon, Ehud Barak ou Ehud Olmert.
De resto, Chavez até já condenou o assalto à sinagoga de Caracas, como reconhece o jornal israelita Haaretz!

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Partido de Quê?…

O P"ND" (as aspas são muito importantes…) é o que é: para além do eufemismo "nova democracia", nada. Ou, para ser mais exacto, um montículo de dejectos da extrema-direita.
Pelos vistos, no entanto, alguns ainda são mais fétidos e não hesitam em conspurcar a Liberdade.
Só espero que o Tribunal Constitucional não permita tal opróbrio, uma vez que os portugueses, com os problemas que já têm de enfrentar, vão-lhes dar a devida resposta: ignorá-los.

domingo, fevereiro 01, 2009

Rio de indignação

Do rio, que tudo arrasta na sua passagem, dizem que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.
Fotografia de Luís Garção Nunes (Fotomomento)

O Mondego dá-nos o exemplo. Galguemos as margens! Sejamos um rio de indignação!

Não há pachorra?!… Pois não…

Da forma como se referiu ao texto do escritor uruguaio Eduardo Galeano, aqui publicado, o Vítor P., do Câmara de Comuns, mais parece assumir uma postura de lorde, sugerindo "que começa a ser escandalos[a] a escrita deste tipo de textos" e incorrendo num acto de abominável censura que os princípios democráticos que ambos defendemos, creio, reprovam. Mas esta é apenas a questão formal do problema.
A questão material, a meu ver, bem mais importante, prende-se, seguramente, com o conteúdo do texto, de que VP dá a entender não gostar, quando afirma que "já não há pachorra". E aí reside a nossa total discordância.
VP deve achar que Israel tem todo o direito de se defender por todos os meios, por todas as formas, utilisando a máquina de guerra mais poderosa do mundo, contra
"as horrendas matanças de civis causadas pelos terroristas suicidas… Horrendas, sim, sem dúvida, condenáveis, sim, sem dúvida, mas [tal como] Israel, ainda terá muito que aprender se não é capaz de compreender as razões que podem levar um ser humano a transformar-se numa bomba." (José Saramago)
Sobretudo quando essas razões são imputáveis ao Estado de Israel.
Começando pela sua abusiva criação em 1948 (contra a qual se insurgiu, prevendo a tragédia que daí adviria, Mahatma Ghandi), com o apoio da Inglaterra e dos Estados Unidos e a cumplicidade das grandes potências mundiais, na maior parte (78%) das terras habitadas milenarmente pelo povo palestino (cf. A Palestina, Comissão Justiça e Paz, Portugal, 2002), e prosseguindo com a instalação de colonatos judeus nos exíguos territórios palestinos que sobraram (Cisjordânia e Faixa de Gaza), operações de limpeza étnica, de que ficou tristemente célebre o massacre de Sabra e Shatilla, a edificação de um gigantesco muro e a implantação de cercas electrificadas e de arame farpado e valas, transformando os territórios palestinos em autênticos campos de concentração.
E agora, a solução final, que os sionistas parecem ter aprendido na sua passagem pelos campos de concentração nazis da 2.ª GM. Primeiro, Sharon, o carniceiro de Sabra e Shatilla, retirou os colonatos da faixa de Gaza. A seguir, a "Operação Chumbo Fundido" (o nome diz tudo das "boas" intenções dos israelitas), que semeou a morte e a destruição num pequeno território com a maior densidade populacional do mundo, onde um milhão e meio de pessoas e crianças encurraladas nem sequer podem fugir para qualquer parte (E não se diga que quem abriu as hostilidades foi o Hamas, com os seus morteiros artesanais, porque foi justamente Israel que, mais uma vez, começou. Lá sabia porquê…)

Maio

PS 1 — Aqui podemos escrever literalmente de tudo, incluindo Cuba, Venezuela e mesmo Rússia. O problema é que há apenas um escriba e não tem tempo para tanto. Em todo o caso, o Câmara de Comuns, com uma vasta equipa de colaboradores, não me parece ser um grande exemplo de diversidade de opinião…
PS 2 — Mesmo para acabar… não percebi o que significa isto: "E trabalhar que é bom?". Defeito meu, certamente.

sábado, janeiro 31, 2009

Ninguém está acima da Lei

Podem afirmar que se inserem em cabalas hediondas, campanhas negras difamantes ou jogadas políticas soezes. Podem mesmo dizer que não passam de estratégias editoriais para incrementar as tiragens dos jornais e as audiências televisivas.
Mas por estas e por outras é que, com investigações que andam a passo de caracol e frequentemente desembocam no arquivamento dos processos, umas violaçõezinhas do segredo de Justiça não fazem nenhum mal. Muito pelo contrário: podem contribuir para a celeridade, a transparência e a equidade na aplicação da Lei.
Não basta afirmar que "Ninguém está acima da Lei", como sustenta, e bem, o senhor PGR. O que é preciso é demonstrá-lo.

De avaliador a avaliado

  1. 1.ª página do Expresso


  2. Conteúdos da 1.ª página do Sol


  3. 1.ª página do Correio da Manhã


  4. Excerto da famosa Carta Rogatória do Serious Fraud Office britânico (obtida aqui) que aponta quatro portugueses como estando sob investigação por alegações de suborno e corrupção no âmbito do "caso Freeport".
    O primeiro chama-se José Sócrates e não há quaisquer dúvidas de que se trata do Primeiro-Ministro de Portugal. Por enquanto…



sexta-feira, janeiro 30, 2009

Demagogia

Considerar ou propalar a consideração de que "quem tem medo da avaliação são os maus professores» seja uma evidência é, isso sim, uma evidente e descarada manobra de reles demagogia e torpe propaganda .
É absolutamente falso que os professores não queiram ser avaliados — pelo contrário, querem-no, desde que, de forma séria, justa, que contribua para a melhoria do seu desempenho profissional e não prejudique as aprendizagens dos alunos nem atente contra a qualidade da Escola Pública. Como despudorada é a mentira de que anteriormente não havia um sistema de avaliação docente quando, na realidade, já existia e só não funcionava em toda a sua plenitude por culpa exclusiva do Ministério da Educação (ver 8.2.9.1. Pre-school education, ensino básico and upper secondary education, na rede Eurydice).
O que os professores, muito especialmente os bons, não admitem é ser "avaliados" de forma burocrática e leviana, em apenas cinco meses, por um "modelo de avaliação", se assim podemos designar o chorrilho de asneiras e perversidades que este ministério dito da educação montou, cujo único propósito é impedir o reconhecimento da excelência e do mérito a mais de dois terços dos docentes.
Vital Moreira, pelo simples facto de também ser professor e um reputado intelectual, não teria qualquer dificuldade em entender e admitir isto, não fora desde sempre ter assumido o papel de comissário político do governo de Sócrates.
É caso para concluir, como escreveu o Pe. António Vieira, que "Muitos cuidam da reputação, mas não da consciência". Quatrocentos anos volvidos, como isto é hoje tão verdade em Portugal!…

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Licenciatura, licenciamentos e outras "licenciosidades"

Primeiro foi o caso nunca devidamente esclarecido duma licenciatura obtida por processos, no mínimo, pouco ortodoxos que incluíram exames "feitos" ao domingo, provas entregues por fax e outros expedientes duvidosos, numa universidade dita independente que de independente pouco tinha e de universidade ainda menos e que acabou, de resto, por ser encerrada pelo próprio governo.
Agora, apesar de os factos terem ocorrido em 2002, as autoridades de um parceiro comunitário com um governo da mesma família política, as quais não estão certamente empenhadas em montar uma cabala contra o Primeiro Ministro português, consideram que Sócrates é suspeito de ter «solicitado, recebido, ou facilitado pagamentos» no âmbito do licenciamento do Freeport, em Alcochete. Certo é que o empreendimento foi licenciado, numa zona ambiental sensível, de forma invulgarmente rápida e, em nossa opinião, pouco legítima, uma vez que a decisão foi tomada na última reunião de um governo, além do mais, de gestão corrente. Mas parece não haver obstáculos que luvas de quatro milhões de euros não possam remover e, mesmo que elas se tenham esfumado em nebulosos paraísos fiscais sem deixar qualquer rasto, impõe-se averiguar exaustivamente se o "gato", na ânsia de se "esconder", não terá deixado "o rabo de fora" em qualquer e-mail ou conta bancária.

E podíamos ainda acrescentar a tudo isto, actos duvidosos ou politicamente inaceitáveis como as já longínquas "assinaturas de favor" de projectos de habitações do senhor "engenheiro" ou a passividade silenciosa perante as escandalosas negociatas da Banca, do senhor Primeiro-Ministro. Sem esquecer a generosa distribuição de mordomias pelos seus correlegionários na Administração e nas empresas públicas.
José Sócrates, Primeiro-Ministro de Portugal, tão parco em ética e transparência, tão forte com os fracos e tão fraco com os fortes, pretende avaliar os professores, os médicos, os funcionários públicos e extorquir os contribuintes até ao último cêntimo, mas tem pouca legitimidade, se é que tem alguma, e muito menos qualquer superioridade moral, para fazê-lo.
Quem tem todos os motivos para o avaliar de forma profundamente negativa são os portugueses. E, em nome da sua sobrevivência, é urgente deixarem de ser um povo de brandos costumes. De uma vez por todas.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Israel, Estado genocida e impune


Tudo indica que esta carnificina de Gaza, que segundo seus autores pretende acabar com os terroristas, conseguirá multiplicá-los. Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem nem respirar sem autorização.
Perderam a sua pátria, as suas terras, a sua água, a sua liberdade, perderam tudo. Nem sequer têm direito a eleger os seus governantes.
Quando votam em quem não devem votar, são castigados. Gaza está a ser castigada. Converteu-se numa ratoeira sem saída. Algo semelhante ao que ocorreu em 1932, quando o Partido Comunista triunfou nas eleições de El Salvador.Banhados em sangue, os salvadorenhos expiram o seu mau comportamento e desde então viveram submetidos a ditaduras militares. A democracia é um luxo que nem todos merecem
São filhos da impotência os foguetes caseiros que os militantes do Hamas, encurralados em Gaza, disparam com má pontaria sobre as terras que haviam sido palestinas e que a ocupação israelense usurpou. E o desespero, à margem da loucura suicida, é a mãe das bravatas que negam o direito de Israel à existência, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto a muito eficaz guerra de extermínio está a negar, desde há anos, o direito à existência da Palestina.
Já pouca Palestina resta. Passo a passo, Israel está a apagá-la do mapa. Os colonos invadem e atrás deles os soldados vão corrigindo a fronteira. As balas sacralizam o roubo, em legítima defesa. Não há guerra agressiva que não diga ser guerra defensiva. Hitler invadiu a Polónia para evitar que a Polónia invadisse a Alemanha. Bush invadiu o Iraque para evitar que o Iraque invadisse o mundo. Em cada uma das suas guerra defensivas, Israel devorou outro pedaço da Palestina, e os almoços prosseguem. A devoração justifica-se pelos títulos de propriedade que a Bíblia concedeu, pelos dois mil anos de perseguição que o povo judeu sofreu e pelo pânico que geram os palestinos à espreita.

Israel é o país que jamais cumpre as recomendações e as resoluções das Nações Unidas, que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, que burla as leis internacionais, e é também o único país que legalizou a tortura de prisioneiros. Quem lhe deu o direito de negar todos os direitos? De onde vem a impunidade com que Israel está a executar a matança de Gaza? O governo espanhol não terá podido bombardear impunemente o País Vasco para acabar com a ETA, nem o governo britânico terá podido arrasar a Irlanda para liquidar o IRA.
Acaso a tragédia do Holocausto implica uma apólice de eterna impunidade? Ou esse sinal verde provém da potência mandona que tem em Israel o mais incondicional dos seus vassalos?
O exército israelense, o de armamento mais moderno e refinado do mundo, sabe a quem mata. Não mata por erro. Mata por horror. As vítimas civis chamam-se danos colaterais, conforme o dicionário de outras guerras imperiais. Em Gaza, de cada dez danos colaterais, três são crianças. E somam milhares os mutilados, vítimas da tecnologia do esquartejamento humano, que a indústria militar está a ensaiar com êxito nesta operação de limpeza étnica.
E como sempre, sempre o mesmo: em Gaza, cem a um. Por cada cem palestinos mortos, um israelense.
Gente perigosa, adverte outro bombardeamento, a cargo dos meios maciços de manipulação, que nos convidam a acreditar que uma vida israelense vale tanto como cem vidas palestinas. E esses meios também nos convidam a acreditar que são humanitárias as duzentas bombas atómicas de Israel, e que uma potência nuclear chamada Irão foi a que aniquilou Hiroshima e Nagasaki.
A chamada comunidade internacional, existe? Será algo mais que um clube de mercadores, banqueiros e guerreiros? Será algo mais que o nome artístico que os Estados Unidos se põem quando fazem teatro? Perante a tragédia de Gaza, a hipocrisia mundial brilha mais uma vez. Como sempre, a indiferença, os discursos vazios, a declarações ocas, as declarações altissonantes, as posturas ambíguas, rendem tributo à sagrada impunidade.
Perante a tragédia de Gaza, os países árabes lavam as mãos. Como sempre. E como sempre, os países europeus esfregam as mãos. A velha Europa, tão capaz de beleza e de perversidade, derrama uma ou outra lágrima, enquanto secretamente celebra esta jogada de mestre. Porque a caça de judeus foi sempre um costume europeu, mas desde há meio século essa dívida histórica está a ser cobrada aos palestinos, que também são semitas e que nunca foram, nem são, anti-semitas. Eles estão a pagar, em sangue constante e sonante, uma conta alheia.



[título nosso]

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Presidente Obama

Obama, nos seus múltiplos discursos e entrevistas, disse tanto de si mesmo, com tanta convicção e sinceridade, que a todos já nos parece conhecê-lo intimamente e desde sempre.(*) É por isso que, embora admita que ele possa vir a não acertar sempre, porque errar é próprio do homem, estou certo que o 44.º Presidente dos Estados Unidos intentará resolver os tremendos problemas que herdou da criminosa e pior administração da história da América: uma economia exangue que atirou o mundo para a maior depressão económica de que há memória, depois do colapso de 1929, e uma paranóia securitária e militarista que, em nome de um suposto combate ao terrorismo que, verdadeiramente, serviu para esconder a gula do complexo-industrial americano pelo petróleo e pela venda de armamento, outra coisa não fez senão aumentar a guerra, a insegurança e a incerteza de todos quanto ao futuro.

São todos estes crimes, assim podemos classificar as decisões tomadas pelo genocida, infelizmente inimputável, George W. Bush, que Obama, seguramente tentará reparar. E já hoje, sem tempo para descansar dos festejos da cerimónia da sua investidura, teve um primeiro dia pleno de trabalho e tomou importantes decisões que se destacam pelo seu enorme significado político:
  • a aprovação de leis para garantir a transparência da sua administração;
  • o compromisso em trabalhar activamente para a paz israelo-árabe desde o início do seu mandato; e
  • a suspensão dos julgamentos na prisão de Guantánamo, durante 120 dias, admitindo o seu encerramento dentro de um ano.
Fica claro, se dúvidas ainda houvesse, que Obama é um homem de princípios, valores, convicções e se baterá denodamente por eles. Mais com a força da razão do que, como fez o seu antecessor, usando e abusando da razão da força.
Só assim a América recuperará o seu prestígio e o Mundo ficará, seguramente, melhor.

Em Portugal, com a actual governação e a que com ela tem alternado (se de verdadeira alternância podemos falar, tão parecidas que elas são), nada de novo, a não ser o fato Armani do senhor engenheiro Sócrates e as gaffes bolorentas da doutora Ferreira Leite. Por muitos, intermináveis e penosos anos (ou não — está nas nossas mãos!).

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Antes que seja tarde!

Donde saiu este homem? Não peço que me digam onde nasceu, quem foram os seus pais, que estudos fez, que projecto de vida desenhou para si e para a sua família. Tudo isso mais ou menos o sabemos, tenho aí a sua autobiografia, livro sério e sincero, além de inteligentemente escrito. Quando pergunto donde saiu Barack Obama estou a manifestar a minha perplexidade por este tempo que vivemos, cínico, desesperançado, sombrio, terrível em mil dos seus aspectos, ter gerado uma pessoa (é um homem, podia ser uma mulher) que levanta a voz para falar de valores, de responsabilidade pessoal e colectiva, de respeito pelo trabalho, também pela memória daqueles que nos antecederam na vida. Estes conceitos que alguma vez foram o cimento da melhor convivência humana sofreram por muito tempo o desprezo dos poderosos, esses mesmos que, a partir de hoje (tenham-no por certo), vão vestir à pressa o novo figurino e clamar em todos os tons: “Eu também, eu também.” Barack Obama, no seu discurso, deu-nos razões (as razões) para que não nos deixemos enganar. O mundo pode ser melhor do que isto a que parecemos ter sido condenados. No fundo, o que Obama nos veio dizer é que outro mundo é possível. Muitos de nós já o vínhamos dizendo há muito. Talvez a ocasião seja boa para que tentemos pôr-nos de acordo sobre o modo e a maneira. Para começar. (José Saramago)

Não sei por quê (ou antes, sei!) este texto (especialmente o sublinhado) me faz lembrar Marx (tese 11.ª de Teses sobre Feuerbach, 1845)… — "Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.".
É caso para dizer… Vamos a isso! Antes que seja tarde.