sábado, janeiro 10, 2009

O massacre de Gaza

O massacre está em curso, assistindo-se na comunicação social a tão curiosos como ridículos esforços para distinguir entre vítimas civis e militares. Em Gaza, para que conste, não há militares, a não ser os invasores. Existem restos da polícia autonómica, militantes do Hamas armados e organizados como milícias. O resto é milhão e meio de desempregados, famintos e humilhados. Tal é o inimigo de Israel que lançou alguns morteiros, por exemplo contra a cidade de Asqelon, que em 1948 se chamava Al-Majdal e era uma aldeia árabe cuja população, vítima da limpeza étnica em que assentou a criação do Estado de Israel, se refugiou em Gaza.

Os dirigentes de Israel asseguram que os «civis» serão poupados durante a invasão. Tal como aconteceu em 1982 em Beirute, onde os militares comandados por Ariel Sharon, fundador do partido de Ehud Olmert e Tzipi Livni, destruíram o sector ocidental da cidade, acabando por patrocinar os massacres de Sabra e Chatila. Ou em 1996, quando Shimon Peres, actual presidente israelita, foi responsável pelo massacre de Canan, também no Líbano, e mesmo assim perdeu as eleições parlamentares.

Gaza, ainda assim, será diferente de Sabra e Chatila. Agora, os soldados israelitas sujam mesmo as mãos com o sangue das populações indefesas – salpicando inevitavelmente os hipócritas que os defendem. (ler mais aqui)

José Goulão (jornalista)

Das pedras de David aos tanques de Golias

1. […] Tanto quanto estamos autorizados a concluir do desenvolvimento deste edificante episódio, David, nas muitas batalhas que fizeram dele rei de Judá e de Jerusalém e estenderam o seu poder até à margem direita do rio Eufrates, não voltou a usar a funda e as pedras.

2. Também não as usa agora. Nestes últimos cinquenta anos cresceram a tal ponto a David as forças e o tamanho que entre ele e o sobranceiro Golias já não é possível reconhecer qualquer diferença, podendo até dizer-se, sem ofender a ofuscante claridade dos factos, que se tornou num novo Golias. David, hoje, é Golias, mas um Golias que deixou de carregar com pesadas e afinal inúteis armas de bronze. Aquele louro David de antanho sobrevoa de helicóptero as terras palestinas ocupadas e dispara mísseis contra alvos inermes, aquele delicado David de outrora tripula os mais poderosos tanques do mundo e esmaga e rebenta tudo o que encontra na sua frente, aquele lírico David que cantava loas a Betsabé, encarnado agora na figura gargantuesca de um criminoso de guerra chamado Ariel Sharon, lança a “poética” mensagem de que primeiro é necessário esmagar os palestinos para depois negociar com o que deles restar. Em poucas palavras, é nisto que consiste, desde 1948, com ligeiras variantes meramente tácticas, a estratégia política israelita. Intoxicados pela ideia messiânica de um Grande Israel que realize finalmente os sonhos expansionistas do sionismo mais radical; contaminados pela monstruosa e enraizada “certeza” de que neste catastrófico e absurdo mundo existe um povo eleito por Deus e que, portanto, estão automaticamente justificadas e autorizadas, em nome também dos horrores do passado e dos medos de hoje, todas as acções próprias resulatantes de um racismo obsessivo, psicológica e patologicamente exclusivista; educados e treinados na ideia de que quaisquer sofrimentos que tenham infligido, inflijam ou venham a infligir aos outros, e em particular aos palestinos, sempre ficarão abaixo dos que sofreram no Holocausto, os judeus arranham interminavelmente a sua própria ferida para que não deixe de sangrar, para torná-la incurável, e mostram-na ao mundo como se tratasse de uma bandeira. Israel fez suas as terríveis palavras de Jeová no 'Deuteronómio': “Minha é a vingança, e eu lhes darei o pago”. Israel quer que nos sintamos culpados, todos nós, directa ou indirectamente, dos horrores do Holocausto, Israel quer que renunciemos ao mais elementar juízo crítico e nos transformemos em dócil eco da sua vontade, Israel quer que reconheçamos 'de jure' o que para eles é já um exercício 'de facto': a impunidade absoluta. Do ponto de vista dos judeus, Israel não poderá nunca ser submetido a julgamento, uma vez que foi torturado, gaseado e queimado em Auschwitz. Pergunto-me se esses judeus que morreram nos campos de concentração nazis, esses que foram trucidados nos pogromes, esses que apodreceram nos guetos, pergunto-me se essa imensa multidão de infelizes não sentiria vergonha pelos actos infames que os seus descendentes vêm cometendo. Pergunto-me se o facto de terem sofrido tanto não seria a melhor causa para não fazerem sofrer os outros.

As pedras de David mudaram de mãos, agora são os palestinos que as atiram. Golias está do outro lado, armado e equipado como nunca se viu soldado algum na história das guerras, salvo, claro está, o amigo norte-americano. Ah, sim, as horrendas matanças de civis causadas pelos terroristas suicidas… Horrendas, sim, sem dúvida, condenáveis, sim, sem dúvida, mas Israel ainda terá muito que aprender se não é capaz de compreender as razões que podem levar um ser humano a transformar-se numa bomba.

José Saramago, O Caderno de Saramago

sexta-feira, janeiro 09, 2009

terça-feira, dezembro 30, 2008

Os 'pink boys'

"Um pouco por todo o lado, as autarquias recusam assumir os custos da propaganda do Governo. Até hoje, só foram entregues 35 mil Magalhães. Muito longe dos números apregoados pelo Governo. Quando as pessoas se habituam a mentir, dificilmente conseguem falar verdade. Bem pode a DREN enviar emails para as autarquias. Os autarcas não são correia de transmissão do ME.
Quando se fizer a história da maior campanha propagandística dos últimos 34 anos, ficaremos a saber qual foi o papel dos pink boys que se penduraram no Plano Tecnológico para venderem ao país a ideia falsa de que o futuro da Nação depende da oferta de banda larga às criancinhas. Os pink boys saltaram dos bancos da Faculdade para o colo do PS e daí para o Governo. Não precisaram de se submeter a dezenas de concursos nem de se sujeitar a empregos de 500 euros mensais. Mal deixaram a Faculdade, tiveram direito a motorista e secretária. Não se governam com menos de 3000 euros mensais. São a novíssima casta socialista. Os netos dos fundadores. Os herdeiros. Esses pink boys, acabados de se licenciar pelo ISCTE e pela Faculdade de Economia da Universidade Nova, viram no PS e no Plano Tecnológico um seguro de vida: um passaporte para o futuro garantido. É vê-los a correr o país atrás do primeiro-ministro, em carros do Estado com direito a motorista do Plano Tecnológico."

Avaliadora avaliada

Porque a realidade excede os meus dotes ficcionais, esta Ficha de Avaliação da Doutora Maria de Lurdes Rodrigues, Ministra da Educação, assenta nos critérios seguidos pelo seu Ministério incluindo, a terminologia usada na avaliação de docentes, o número de alíneas e a bitola de classificação.

Níveis de Pontuação: Mínimo 3, máximo 10.

A - Preparação e execução de actividades.

A - 1 Correcção científico-pedagógica e didáctica da planificação.

Classificação obtida - Nível 3

(Não efectuou as reformas previstas no Programa do Governo por falta de trabalho preparatório. As cenas de pugilato, luta greco-romana e intimidação por arma de fogo simulada nas áreas que lhe foram confiadas vão originar um aumento significativo da despesa pública com a contratação à Blackwater (por ajuste directo) de um mercenário israelita por cada sala de aula e dois nas salas dependentes da DREN).

A - 2 Adequação de estratégias.

Classificação obtida - Nível 3

(Não definiu linhas de rumo nem planos de acção que permitissem concretizar a missão delineada, usando como benchmarking nacional os parâmetros seguidos no sistema educativo da Faixa de Gaza.)

A - 3 Adaptação da planificação e das estratégias.

Classificação obtida - Nível 3

(Não obteve eficácia aferível em três anos de actividade, consumindo no processo a maior parcela de verba pública atribuída a um Ministério. Insistiu em manter o organograma dos seus serviços (em particular da DREN) inspirado no modelo das Tentações de Santo Antão de Jeronimus Bosh).

A - 4 Diversidade, adequação e correcção científico-pedagógica das metodologias e recursos utilizados.

Classificação obtida - Nível 3

(A observação empírica dos resultados é indiciária de um inadequado e/ou incorrecto aproveitamento de recursos disponibilizados em sucessivos Orçamentos de Estado em tal monta que fazem o BPP parecer uma operação rentável. Adicionalmente, o seu Ministério atingiu tal desordem que faz a Assembleia Geral do Benfica parecer um retiro de monges Cartuxos).

B - Realização de actividades.

Classificação obtida - Nível 3

(A avaliação conclui que à incapacidade da avaliada na "promoção de clima favorável" se junta a insuficiência de valências de conhecimentos gerais essenciais, como o atesta a confusão que fez a 23 de Junho de 2005 pp. em entrevista televisionada, falhando na distinção entre "República" e "Governo da República". Isto deu novas dimensões ao Estatuto da Autonomia dos Açores e inspirou o Chefe do Estado a crescentes afrontas à vontade do Parlamento com graves e desgastantes consequências para o executivo.

Nas secções C e D da Ficha de Avaliação do Ministério da Educação, nos quatro subgrupos, a avaliada obteve oito classificações de Nível 3, pelo que, feita a média aritmética dos dezasseis parâmetros cotados lhe é atribuída a classificação geral de Insuficiente. Recomenda-se que sejam propostas à Doutora Maria de Lurdes Rodrigues as seguintes opções: integrar o quadro de mobilidade especial até colocação em Baucau; frequentar um curso das Novas Oportunidades e/ou filiar-se no Movimento Esperança Portugal; aceitar o 12º lugar na lista de espera para o próximo Conselho de Administração da FLAD; frequentar o curso de formação do INA - Limites da Autonomia Regional; ser animadora de As Tardes de Maria de Lurdes na RTP África; integrar a quota ainda disponível para antigos executivos socialistas na Mota Engil, Iberdrola ou BCP.

quinta-feira, dezembro 25, 2008

Crianças sem Natal

Dia de Natal

Tristeza vai-te embora
Tristeza
pequena morte
Chega a noite, vai-se o dia
e assim há-de desaparecer este pobre diabo
que eu sou
com calças rotas
camisola cosida
Esperavas um milagre nesta noite de Natal?
A camisola não recebeste
As calças não tas deram
Bem feito
para não acreditares em anjos.

mário


Carta ao Menino Jesus

Meu querido Jesus:

Aqui estou neste sítio pobre, nesta rua fria, na minha casa de lata com as árvores vermelhas a anunciar a tua chegada.
Os anjinhos de estrelas das montras de Lisboa quando eu esta tarde estive sentado naquela rocha negra do fim do cais, disseram-me que não chorasse porque teria umas calças vermelhas e uma camisola de lã branca com flores roxas. Mas agora é de noite, os pés não os sinto e se me dessem uns pauzinhos para fazer um lume, mesmo pequenino, ou me levasses nos braços para o céu como se fosse uma gaivota, essa era a minha melhor prenda de Natal.

fernando brás


Fiz também estes versos numa noite de natal

Estou farto de ser pobre
e de viver numa barraca de lata
agora sinto que morro
sinto a morte a chegar
vejo tudo perdido
é permanente este rio
pobre

sinto que morro
a morte é fria
mas viver nisto, não.
Estou só
Fica este poema
para quando me encontrarem
terem vergonha desta miséria.

victor pinho moreira

A Criança e a Vida, textos infantis coligidos por Maria Rosa Colaço

Feliz Natal e Bom Ano Novo

Num país decente, com um governo verdadeiramente preocupado com a educação das novas gerações e consciente do papel insubstituível dos professores na concretização de tal desiderato, esta seria, seguramente, a mensagem que os docentes gostariam de receber do ministério da tutela. Baseada em ideias validadas por quinhentos anos de História.
Lamentavelmente, é apenas uma mensagem de Natal de uma empresa comercial. Bela, ainda assim.

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Deixe-os trabalhar!

Usando da mesma vergonhosa hipocrisia que já revelara, ao fazer da negociação um simulacro que apenas serviu os seus objectivos propagandísticos, "o Ministério da Educação deu hoje como encerradas as negociações sobre o modelo de avaliação dos professores para este ano […] e pediu aos sindicatos que aceitam a “legitimidade democrática do Governo para governar”.

Desprezando completamente o protesto massivo de mais de cem mil professores, fazendo letra morta das propostas e reivindicações dos parceiros sociais (por ele declarados como inimigos), ignorando os apelos ao diálogo da Presidência da República, da Igreja, de toda a oposição parlamentar (incluindo alguns correlegionários que ousam sair do redil governamental), e das mais diversas personalidades de reconhecido mérito da sociedade portuguesa, o Governo varre apressadamente o lixo para baixo do tapete e tenta esconder o país real atrás do biombo esfarrapado do seu fiel rebanho de deputados.

E pede aos sindicatos que o deixem governar???!!!…
Pois os professores hão-de continuar a pedir, a exigir, ao Governo, que os deixe trabalhar!!!…

Vozes do descontentamento

É evidente que eles não querem negociar nada.
Agora já não se podem dar ao luxo de parecer tão intransigentes como nos anos de chumbo do socratismo.
Mas a negociação para eles resume-se a mais ou menos a isto: “O decreto é este e no texto não é para mexer. Digam lá agora onde querem pôr as vírgulas…”


A proposta da Plataforma Sindical, como solução transitória (era disso que se tratava), servia perfeitamente.
[Contudo], Para o ME, nem as vírgulas são negociáveis.
Uma vírgula estrategicamente colocada pode mudar o argumento do filme.
Todos nos lembramos do “caso da vírgula”.


Afinal, o que pretendem, os sindicatos?!
Marcaram greves regionais.
Desconvocaram-nas. Bastou para isso um telefonema de um calhau qualquer, que seria, naturalmente, engodo.
Sindicatos com uma classe profissional, toda em peso, a apoiá-los.
Que vão fazer dia 15 ?????! Colocar todos os professores, em cheque? Expostos, ao ridículo? Esvaziar a pressão sobre estas bestas?
Deve ser para darem mais trunfos, à defunta.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Resistir (agora mais do que nunca)

Pronto. Depois das declarações de Sócrates ao seu rebanho parlamentar, ficou provado, se dúvidas ainda houvessem, que a negociação da Plataforma Sindical dos Professores com o ME mais não foi do que uma encenação, urdida com o propósito exclusivo de veicular uma imagem dialogante daquele que é o Governo mais autoritário dos últimos trinta anos.
De resto, o diálogo foi de tal modo genuíno que a pedreira ministerial nem uma vírgula aceitou das propostas sindicais.
Ao invés, anda a coagir os Presidentes dos Conselhos Executivos — dantes, órgãos de gestão democrática das escolas e, agora, meras correias de transmissão do ME — a avançarem com a aplicação do seu modelo de avaliação incendiário e perverso e a afirmarem que o processo avança, mesmo se, de facto, está parado.
Esgotadas as negociações, que verdadeiramente não existiram, e com tempo chuvoso e frio, a luta regressa às escolas.
Os professores irão mostrar que a sua preocupação é a aprendizagem dos seus alunos e, seguramente, dar a resposta que avisos como este merecem: ignorá-los. Nunca como agora fez tanto sentido a máxima de Ghandi: "Quando alguém compreende que é contrário à sua dignidade de homem obedecer a leis injustas, nenhuma tirania pode escravizá-lo."

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Negociar coisa nenhuma

José Sócrates diz que está cansado de guerras, mas admite que, com uma maioria absoluta, o PS não precisa de comprar a paz. Por isso, garante que não vai haver qualquer alteração no modelo de avaliação dos professores.
Se assim é, negociar é uma formalidade, tempo perdido.
Só resta aos professores cansá-lo ainda mais: nas escolas, na rua e… ah, nas eleições!

Actualizando…

Mário Nogueira, da Plataforma Sindical dos Professores, declarou ao DN esperar não ser surpreendido com a apresentação de medidas já aprovadas em Conselho de Ministros.
Porém, é agora mais do que provável que seja isso mesmo que venha a acontecer.
Só assim se compreende a febre do Governo em antecipar a reunião de 15 para 11/ 12.
Só assim se compreende a declaração de guerra de Sócrates.
A reunião dos sindicatos com o ME será uma farsa. Disso não restam dúvidas.
Não há nada para negociar com o Governo mais arrogante, prepotente e autoritário de que há memória, do pós-25 de Abril.
Agora vai ser o 'tudo ou nada' para os professores: ou continuam a lutar, unidos, com a força da razão que verdadeiramente têm, ou cedem à razão da força da maioria governamental e serão definitivamente derrotados e humilhados.

O Verdadeiro Menino Guerreiro

"Os professores não precisam de ser comprados, precisam sim de ser respeitados. Não percebendo isso, José Sócrates não percebe nada, desde a base. Eu teria vergonha em ser comprado por alguém, mas muito em especial pelo Governo do senhor doutor engenheiro José Sócrates. Ou melhor, até talvez perceba, embora certamente o espante, que muito poucos professores aceitam ser avaliados, desde que não seja por grelha ou fax. E que compras de avaliações, as há e houve, de variados preços, mas não é isso que queremos." ler mais

Paulo Guinote

Mais do que nunca, unidade e querer!

Já todos sabemos as ilações que o ME tirou da esmagadora greve do passado dia 3: foi apenas significativa, não encerrou a maioria das escolas e, como tal, prossiga o simplex (mesmo que esteja parado um pouco por toda a parte). Apesar disso, eles foram de tal forma encostados às cordas que, no próprio dia da paralisação, Pedreira já admitia que a versão 'simplificada' também fosse aplicada nos próximos anos e Lurdes Rodrigues, no dia seguinte, na Assembleia da República, falava pela primeira vez na possibilidade de substituição do seu modelo, mas só em 2009/ 2010 (!). O ministério cambaleava mas não ia ao tapete e esperava ansiosamente por uma contagem de protecção que evitasse o assalto seguinte, as greves regionais. E ela veio, na quinta-feira ao fim do dia, com a marcação de uma reunião para 15 de Dezembro com a Plataforma Sindical que, em troca, suspendeu as greves agendadas.
Percebo o ponto de vista dos sindicatos: passar uma imagem de abertura ao diálogo e à negociação, no pressuposto de que a agenda da reunião seria aberta, suspensão do actual modelo de avaliação incluída.
Porém, imediatamente a seguir, logo que se sentiu livre da pressão dos professores, o ME voltou a apregoar que o seu modelo de avaliação não está suspenso — ainda que os factos demonstrem o contrário — e que não admite, sequer, negociar a sua suspensão. Pior do que isso, de então pra cá, tem recrudescido de autoritarismo e prepotência, antecipando de forma unilateral a data da reunião com a Plataforma Sindical e intimidando disciplinarmente os Presidentes dos Conselhos Executivos, coagindo-os a declarar que o processo de avaliação não está, de facto, suspenso e a fazê-lo avançar de qualquer forma.
Por tudo isto, embora perceba que o objectivo do Ministério da Provocação é procurar provocar professores e sindicatos para uma radicalização que se considera vantajosa em termos de opinião pública, a verdade é que a trégua favoreceu o monstro da 5 de Outubro, que reaparece agora mais brutal e ameaçador.
Mais do que nunca, a nossa unidade e o nosso querer vão ser postos à prova: na mesa das negociações e nas nossas escolas.

terça-feira, dezembro 09, 2008

A Guerra Santa

Sente-se um "mal-estar profundo" na Educação, que não se circunscreve ao modelo de avaliação dos professores ou à carreira docente", podendo dizer-se que "está em causa o seu futuro".
"Tem havido problemas de audição, de ouvir as vozes que gritaram forte e, certamente, não gritaram tanto contra, mas em favor de um melhor projecto de educação." Por isso, a voz dos professores "tem de ser ouvida".

Com um Presidente da República que lava as mãos como Pilatos e um Governo e um Ministério da Educação que sofrem de surdez política congénita, ganham particular relevo as palavras sábias e comprometidas da Igreja Católica.
A partir de agora, a luta dos professores, em defesa da Escola Pública e da dignidade da função docente, é uma Guerra Santa!…
Mais tarde ou mais cedo, hão-de vencê-la!…

segunda-feira, dezembro 08, 2008

O direito de desobedecer

O Estado de Direito democrático baseia-se na soberania popular, no respeito e na garantia de efectivação dos direitos e liberdades fundamentais e, no nosso caso, como garante o Artigo 2.º da Constituição da República Portuguesa, visa ainda "a realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa", desiderato que a alternância partidária que há 30 anos nos governa está cada vez mais longe de realizar, continuando, por esse facto, Portugal a ser um dos países mais pobres e socialmente mais injustos da União Europeia. Mas deixemos de lado esta questão que, embora não seja despicienda, não é a que, por ora, nos interessa.
O Estado de Direito democrático caracteriza-se também pelo primado da Lei. Isto significa, uma vez mais no nosso caso, que o Estado funda-se na legalidade democrática e subordina-se à Constituição (Artigo 3.º da CRP), e todos os cidadãos gozam dos direitos e estão sujeitos aos deveres nela consignados (Artigo 12.º da CRP).
Infere-se deste discurso que a legislação e a acção governativa, além de exequíveis, têm de estar ao serviço dos cidadãos e da realização e aprofundamento da democracia, e devem ser coerentes e respeitarem os princípios constitucionais.
Ora, é precisamente isto que não acontece com o actual processo de avaliação do desempenho dos docentes que, além de ser uma monumental trapalhada legislativa, assenta num modelo absolutamente impraticável e prejudicial ao normal funcionamento das escolas. Por isso o processo está, de facto, suspenso em quase todo o lado. Todos sabemos disso. Até os pais o sabem. O próprio Ministério da Educação o sabe, mas recusa-se, por razões políticas, a admiti-lo, recorrendo à chantagem, à intimidação, à ameaça, em suma, à violação dos mais elementares procedimentos democráticos e liberdades individuais. Mas, os professores manter-se-ão unidos e saberão resistir ao autoritarismo e à arbitrariedade do ME.
A desobediência à prepotência e à injustiça é um direito. E, acrescentaria, um dever cívico.

A Avaliação dos Professores explicada às crianças

(O Simplex anunciado saiu Durex furado)

O que aqui se apresenta não são soluções para o ensino, mas sim mais problemas. Estes problemas foram explicados a uma criança de 10 anos que compreendeu e agora sabe o que se passa.

E você? Sabe tanto como um miúdo de 10 anos? Ou vai na conversa da Ministra da Educação?

domingo, dezembro 07, 2008

Desesperar Jamais

Desesperar jamais
Aprendemos muito nesses anos
Afinal de contas não tem cabimento
Entregar o jogo no primeiro tempo

Nada de correr da raia
Nada de morrer na praia
Nada! Nada! Nada de esquecer

No balanço de perdas e danos
Já tivemos muitos desenganos
Já tivemos muito que chorar
Mas agora, acho que chegou a hora
De fazer Valer o dito popular
Desesperar jamais
Cutucou por baixo, o de cima cai
Desesperar jamais
Cutucou com jeito, não levanta mais

Composição: Ivan Lins / Vitor Martins


O Pitbull

O Pitbull é um cão extremamente dotado para o combate que, mesmo estando moribundo, esperneia e não desiste da luta. Só estando “morto” desaparece de cena.
Este ME é como o Pitbull, está a espernear, está quase morto, mas resiste, rosna e se sentir que o adversário perde a determinação, mesmo moribundo, pode ser fatal.
Não acredito no ME, porque o ME esteve moribundo a 8 de Março e ressuscitou, devido à piedade do adversário, sobre a forma de um “entendimento”, no qual eu, ingenuamente, também acreditei. Mas esse ME-Pitbull ressuscitado passou, desde Abril até Outubro, a massacrar e a humilhar os professores, aproveitando-se da ingenuidade dos sindicatos e de alguns professores como eu.
Quem faz dessas “patifarias” não nos merece qualquer respeito, nem credibilidade, porque, mal viramos as costas, teremos este Pitbull a atacar com força redobrada.
Oxalá eu esteja enganado, mas esta pausa irá retemperar o Pitbull, que depois irá contra-atacar sem dó nem piedade!
Reparem que esse Pitbull verbalizado pelo Jorge Pedreira, ainda rosna com triunfalismo, mesmo estando gravemente ferido!
Enquanto os professores não perceberem o perfil de Sócrates e do seu ME-Pitbull, então é porque não aprenderam nada!
Não se pode confiar em quem nos mente!

sábado, dezembro 06, 2008

Alerta máximo

Quando a esmola é muita o pobre desconfia. Foi isso que a Plataforma Sindical dos Professores não fez: desconfiar das promessas de Jorge Pedreira de que o ME estaria disponível para "regressar à mesa das negociações, sem condições", numa reunião "onde tudo [estaria] em cima da mesa", em troca da suspensão das greves regionais agendadas para a próxima semana.
Afinal, imediatamente a seguir, e como se nada se tivesse passado, o secretário de Estado, declarava, que “não há suspensão do processo de avaliação" e, pela calada da noite, a máquina de propaganda da 5 de Outubro voltava a atacar as caixas de correio electrónico dos professores, avisando-os que tudo continuava como dantes.
Há muito deveríamos saber que, com esta diabólica trindade do ME, escolhida a dedo pelo mentiroso-mor do actual governo, todos os cuidados são poucos.
Hoje, de manhã, o líder da Plataforma Sindical, veio declarar que nem lhe passa pela cabeça que o ministério não tenha usado de "seriedade e boa-fé", quando admitiu que a reunião do dia 15 de Dezembro teria uma "agenda aberta", incluindo, obviamente, a possibilidade de suspensão do actual modelo de avaliação, mas entretanto, a meio da tarde, através da televisão do governo, paga (também) pelos professores, o ex-sindicalista Pedreira, com pompa e circunstância, voltava a frisar, para esclarecer "equívocos", que “não haverá suspensão" da avaliação.
Não ficou sem resposta. Mário Nogueira, em conferência de imprensa, apelou ao Governo para a que aja com seriedade e cumpra o compromisso negocial. Dando espaço e exemplo para que se encontre uma solução negociada para o conflito. Mas deixando, simultaneamente, o aviso que, se não houver suspensão da avaliação, não haverá suspensão da luta.
Os professores estão em alerta máximo. "Se o Ministério da Educação quiser guerra, vai ter guerra"!…

A uma educação sem a cedilha

(ou gastar cera com ruins defuntos)

Acima das metáforas, a sério
e contra a prática da hipocrisia,
gostava de fazer uma poesia
que fizesse cair um ministério,

o que se esmera a ser a cobra prima,
legislador em prosa de leproso,
que é um triunvirato tenebroso,
que é uma cruz que nos caiu em cima,

que é o surdo e o cego e que persiste
sem vislumbrar além do seu umbigo,
sonâmbulo que só fala consigo
e faz de conta que mais nada existe.

Militante do turvo e do confuso,
alcandorado no seu trono imenso,
com poder em abuso e sem o uso
elementar do mais comum bom senso.

Examinam-se e surgem-nos exactas
as inexactidões dos próprios actos,
expressas nas erratas das erratas
que são os seus decretos caricatos.

A vida, corrigindo-lhes discursos,
há muito que os tornou ultrapassados.
Fazem sorteios e chamam-lhes concursos,
colocando o rigor nos sorteados.

A sua solução é concentrar
em cada professor um inimigo.
O propor... não o sabem conjugar.
Só o impor... e só se for castigo.

Mas a grande, a suprema solução
é a medida popular e mística
que sujeita o docente à retenção
e o aluno ao sucesso da Estatística.

Confundem as vitórias com derrotas.
Querem-nos quietos a contar migalhas.
Mas de quem malbarata as suas tropas
a história diz que não ganhou batalhas.

Bússola gasta que já não norteia,
são a troça que roça o antipático,
o atraso mental, a verborreia,
a veia irracional, o burocrático.

Repelentes, pretendem repelir-nos,
a raiva já subiu a titular,
mas, se nos querem cães, vão consentir-nos
o direito sagrado de rosnar.

Para além de ridículos e fúteis,
são à razão soberbos atentados
e, ainda que cancelem, só são úteis
quando eles próprios forem cancelados.

Eis o resumo de um triunvirato,
em que a perfídia é o que mais perfilha.
A sua lucidez e um hiato.
A sua educação é sem cedilha.

Euleriano Ponati, poeta não titular
(enviado pelo amigo Manuel Freire, esse mesmo… o da Pedra Filosofal)